Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Google-Translate-Portuguese to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese
ENQUETE:
VOCÊ JÁ PRECISOU BUSCAR AJUDA PSICOLÓGICA?
SIM, FIZ O TRATAMENTO
BUSQUEI MAS NÃO CONTINUEI
PRECISEI MAS NÃO PROCUREI
NUNCA PRECISEI DE AJUDA
NENHUMA DAS OPÇÕES
Ver Resultados



ONLINE
3




 

Site Philosofia Grega: figura de uma coruja com chapéu de formatura

Site Um passo: Dê o primeiro passo acesse um passo: desenho de dois pés descalços andando para a frente




PSICÓLOGO GEOFILHO FERREIRA MORAES
PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A ACP

Por psicólogo Geofilho Ferreira Moraes
CRP-12/10.011
Data: 20 de setembro de 2011

CARRENHO, Esther; TASSINARI, Márcia; PINTO, Marcos Alberto da Silva. Perguntas e Respostas. In: CARRENHO, Esther; TASSINARI, Márcia; PINTO, Marcos Alberto da Silva. Praticando a Abordagem Centrada na Pessoa: Dúvidas e perguntas mais freqüentes. São Paulo: Carrenho Editorial, 2010. cap. 7, p. 129-191.

Perguntas e Respostas
Esther Carrenho
Márcia Tassinari
Marcos Alberto da Silva Pinto

Como a ACP trabalha a ludoterapia?
Esther Carrenho

“As crianças conseguem expressar com mais pureza e simplicidade do que os adultos...” Dircenéa de Lazzari Corrêa

Sempre que alguém pergunta em supervisão, como a ACP trabalha a ludoterapia, vêm à minha memória alguns fatos da minha infância e começo a refletir em como gostaria de ter sido atendida caso tivesse ido para algum psicólogo. E a primeira resposta que me vem à mente é que gostaria de ser notada, ser reconhecida e valorizada pelas minhas ideias, pensamentos e comportamentos. Claro que esses desejos refletem o que me faltava enquanto criança. Cada criança tem urna singularidade. Ninguém é igual a ninguém. Nem a criança. Talvez o maior crime que se comete contra a criança em atendimento psicológico seja o de classificá-las e generalizá-las como se elas não tivessem uma história de vida única. Quando os pais ou responsáveis buscam ajuda para uma criança, no mínimo eles estão preocupados e adiem sabe sofrendo e sem saber como resolver o que entendem que é um problema. A criança, em geral, também está sofrendo. Se não sofre pôr si mesma, sofre em perceber que seus pais sofrem por causa dela.

Página <129>

A primeira coisa que um profissional precisa saber quando se compromete a atender uma criança em: ludoterapia é algo simples. A criança não é um adulto, mas nem por isso deixa de ser uma pessoa única, que merece todo respeito e interesse genuíno pelo profissional.

Atualmente, já temos muito material bem elaborado direcionado par ludoterapeutas. Destaco aqui os livros de Virginia Mãe Axline, que conviveu com Rogers e desenvolveu um era trabalho de psicoterapia para crianças, praticando toda a teoria da Abordagem Centrada na Pessoa. Considero também de muita importância o capítulo sobre ludoterapia de Dircenéa de Lazzari Corrêa (Klöckner, 2009) e o de Anita Bacellar (Bacellar 2009). Mas quero listar aqui algumas coisas que ao meu ver são fundamentais no, atendimento infantil.

Em primeiro lugar, o foco principal é o que a criança apresenta, fala ou revela na interação terapêutica. É importante ouvirmos as queixas dos pais e/ou da escala, mas o interesse deve ser voltado para a queixa ou aquilo que a criança apresenta, pela fala ou brincando, como dificuldade. O que foi relatado pelos pais será falado com a criança, mas deverá receber do profissional a mesma importância dada pela criança.

Texto em Destaque
Lembro-me de uma criança, um menino de oito anos, que a mãe e a professora achavam que sofria por ter poucos amigos na escola e passar muito tempo sozinha. Quando abordei o assunto, ele respondeu imediatamente: “Eu tenho amigos, mas gosto de ficar sozinho.” E na verdade, o que se comprovou é que ele estava cada vez mais sozinho, porque não, se sentia amado pelo pai, por não gostar de futebol. Quando o pai soube disso, num dos nossos encontros, mudou sua postura e o menino em consequência se tornou mais sociável.
Fim do Texto em destaque

Página <130>

A proposta da ludoterapia na Abordagem Centrada na Pessoa é ajudar a acriança a se ajudar. É facilitar para que ela encontre seu próprio caminho dentro da sua realidade. O contrato é feito com os pais, obviamente, mas o profissional não está lá para fazer parte do quadro de pessoas que tentam moldar a criança de acordo com o que acham correto. A psicoterapia de crianças tem como proposta fortalecer o que é peculiar e específico daquela criança e que faz sentido para ela. Enfim, é um trabalho que deverá fortalecer o jeito de ser da criança.

Outra confusão que se faz pertinente à ACP, em relação a atendimento infantil, é que, por não se usar o controle e a diretividade no contexto psicoterapêutico, acredita-se também que não há necessidade de providenciar brinquedos e todos os recursos possíveis para que a criança possa escolher o que quer fazer e se sinta bem. Da mesma forma que, não se entra com um script pronto para o atendimento de um adulto, também não se entra com o atendimento planejado para a criança. Ela é quem deve escolher. Mas para que ela escolha, é necessário ter material disponível e ainda deixá-la livre para que ela traga seu próprio material, se assim quiser.

Uma psicóloga que faz parte do meu grupo de supervisão tem seu consultório do lado de um terreno grande com jardim e gramado. Ela deixa as crianças, livres para escolherem. E muitas crianças já escolheram brincar na grama, mexer na terra do jardim. Uma menina diagnosticada com um leve grau de autismo, quando viu a cozinha, sugeriu fazer alguma comida juntas. A terapeuta topou e foi um dos atendimentos onde a garota mais se, expressou. Tanto pela fala quanto pelo que iam fazendo. A dificuldade que se apresenta quando se trabalha com crianças com essa liberdade é o relacionamento com os pais. Muitos pais trazem os filhos para a ludoterapia, com o desejo de que o psicoterapeuta se torne alguém que vá mudar a criança de acordo com o que os pais acham correto. Penso que os pais deveriam

Página <131>

trazer uma criança para a psicoterapia esperando que o psicólogo os ajude a enxergar melhor quem é o seu filho. Quando isto não acontece, cabe ao psicólogo esclarecer bem qual é o alvo daquele trabalho e aos pais cabe escolher se querem levar adiante ou não a proposta psicoterapêutica.

Outra dúvida que sempre surge na supervisão referente ao atendimento infantil, é a questão dos limites necessários quanto ao horário, determinadas regras na sala e guardar os brinquedos. A questão é a mesma do atendimento de adultos. Não contro1ar o que vai acontecer no atendimento não significa permissividade para algum comportamento que traga danos para os móveis ou qualquer outro elemento da sala. E muito menos algum comportamento que cause mal estar e incômodo para o psicoterapeuta. E desde o início, no primeiro atendimento, importante que a criança saiba que algumas coisas são necessárias para a ordem e o bom andamento do trabalho do profissional para outras pessoas.
 Os brinquedos, a sucata e todo material possível deve ficar à disposição da criança. Não ter diretividade e controle não significa não promover os recursos para que a criança possa escolher o que quer fazer ou com o que quer brincar. Ela pode ficar livre para trazer o que quiser de sua casa, mas nada melhor do que ela perceber que o profissional cuida do ambiente e dos materiais que ficarão disponíveis para ela por algum tempo na semana.

Enfim, é preciso que a criança sinta que o psicoterapeuta está realmente interessado nela e a aceita. E num clima de acolhimento haverá a facilitação para que a criança expresse seus conteúdos internos e os reintegre em suas vivências, construindo dessa forma Sua autonomia.

Página <132>

Qual a diferença entre psicoterapia, orientação e aconselhamento?
Márcia Tassinari

A etimologia das palavras psicoterapia e terapia vem de therapeuen, palavra grega que significa cura e iniciação, mas também therapón, que significa aquele que dirige o carro do guerreiro. O therapón limpava as armas (lanças), o escudo e as armaduras do guerreiro.

A primeira forma de psicoterápia surgiu no século V a.C. como sofista Antífon, que propôs a Techné Alupias (arte de vencer a depressão ou o tratamento das paixões). Antífon criou o método de techné alupias, um tratado sobre como se elimina a dor. Criou um alojamento para encontrar com as pessoas e os resultados eram alcançados pelo dia logon, com as palavras, por meio do diálogo.

Aconselhamento Psicológico. No que diz respeito a etimologia do aconselhamento não diretivo, a palavra conselho nos remete a consilium, que significa com/unidade, com/reunião. Essa significação importante, pois supõe a ação de duas ou mais pessoas voltadas para a consideração de algo. É a própria noção de um conselho: várias pessoas reunidas para examinar com atenção, olhar com respeito, para deliberar com prudência e justeza. (SCHMIDT, 1987).

Rogers introduziu dimensão clínica no aconselhamento psicológico, ao propor mudanças em três eixos:
- Do problema para a pessoa
- Da avaliação/medição para a relação
- Da solução/produto pára o processo de mudança

A partir desse tipo especial de aconselhamento, da gravação das entrevistas de aconselhamento e das pesquisas a respeito da eficácia da terapia centrada no cliente, Rogers contribuiu, de maneira significativa, para que os psicólogos pudessem também

Página <133>

praticar a psicoterapia, prática reservada aos médicos de formação psicanalítica.

A partir de Rogers, a diferença entre psicoterapia e aconselhamento ficou meio tênue e o próprio Rogers, em entrevista, respondeu: “Quem decide se é psicoterapia ou aconselhamento é o próprio cliente: quando ele tem uma questão pontual e não tem interesse em reorganizar sua personalidade, ele está pedindo aconselhamento e eu respondo como conselheiro, mas quando ele solicita reflexões a respeito de sua vida, sem uma questão específica, ele está solicitando psicoterapia e eu respondo como psicoterapeuta.” Essa resposta de Rogers nos indica que não existe diferença conceitual entre uma e outra forma de intervenção, ainda que as intenções sejam distintas.


Corno a ACP trabalha com a “transferência”? E a “contratransferência”?
Márcia Tassinari

Essa pergunta sempre aparece nas aulas e palestras É como se os alunos buscassem a “tradução” dos conceitos da Psicanálise (mais estudada na graduação e mais conhecida na sociedade) para outras fundamentações teóricas.

Freud, inicialmente, ficou atento à qualidade relacional criada entre ele e seus pacientes, entretanto, corno o modelo criado por ele entendia o profissional como um expert ou especialista e não como urna pessoa, não era possível falar de relacionamento de “pessoa a pessoa”. Transferência e contratransferência são conceitos (pertencem à teoria) e não fenômenos, portanto, não têm existência concreta fenomenal. Freud precisou criar um construto que desse conta do fenômeno da relação e as-

Página <134>

sim hipotetizou que toda e qualquer reação do paciente para o analista estava no lugar de outra, no caso, das figuras parentais:

Assim, o paciente transfere (positiva ou negativarnente) sentimentos, desejos e atitudes que vivenciou nas primeiras relações parentais. Mais tarde, Freud deu-se conta de que o fenômeno relaciona1 era um fenômeno de mão dupla, isto é o analista, eventualmente, tinha sentimentos, desejos e atitudes em relação a seu paciente que, na verdade, eram de outras relações, criando o conceito de contratransferência. Em um primeiro momento, Freud considerou a contratransferência inadequada, pois indicava um grau de imaturidade por parte do analista.

Pois bem, e a Abordagem Centrada na Pessoa? Rogers criticava a postura formal e distante de Freud e focalizava realmente a importância do vínculo relacional entre, cliente e terapeuta. Rogers propõe, ao contrário de Freud, uma relação profissional e pessoal, ressaltando a importância da consideração (carinho) pelo outro, sem avaliações, sem impor nenhuma condição.

Outro aspecto presente na ACP e que tem causado tantas distorções refere-se, à atitude de congruência do terapeuta Esse terapeuta não usa máscaras nem artificialismo: ele não abdica de sua condição de pessoa inteira, em estado de acordo interno para promover um clima seguro e de confiança para que o cliente possa se entregar. Por outro lado, podemos ver que tanto os conceitos freudianos quanto as atitudes rogerianas apresentam interfaces, pois estão inseridos em uma relação e referem-se aos afetos que são construídos nessa relação. Assim, podemos entender certa confusão, as precisamos localizar de onde eles partem.


Marcos Alberto
Durante toda minha vida profissional, estive distante da vida acadêmica por ter escolhido ser psicoterapeuta em tempo integral, mas, mesmo assim, percebo que o tempo que as universi-

Página <135>

dades têm dedicado a falar da Abordagem Centrada na Pessoa continua muito pequeno. Desde os tempos de minha passagem pela universidade, nos anos 80, já era assim. Felizmente, no meio da maioria de professores psicanalistas e comportamentais, tive a sorte de ter alguns professores humanistas, dentre eles um que utilizava essa abordagem como referência profissional. Foi com ajuda dele, o então professor Cláudio Bérgamo, que iniciei os meus estudos (principalmente fora da universidade) dentro dessa referência teórica.

Infelizmente, por sermos minoria, temos menos professores universitários atuando nas universidades, o que faz com que a nossa abordagem seja menos difundida. Os formandos saem da universidade com o referencial teórico da psicanálise ou da psicologia comportamental, gerando novos professores dessas abordagens, tornando-se assim uma grande bola de neve. Escolhi fazer esse comentário para falar que, em função disto, saímos das universidades contaminados por essas outras abordagens e isto acaba por dificultar a compreensão do funcionamento da ACP, por ela ter um jeito totalmente oposto ao que nós habituamos a ver durante o nosso tempo de formação.

Por diversas vezes, nos cursos que esporadicamente ministro, já me perguntaram o que é o equivalente a “transferência” em nossa abordagem. Perguntam-me a respeito do que é equivalente a vários conceitos psicanalíticos. Confesso que esse tipo de pergunta sempre me deixa surpreso e costumo dizer, em tom de brincadeira, embora esteja falando sério, que na ACP não há nada equivalente a esses termos e a essas posturas, pois, se fosse assim, essa abordagem não precisaria existir, pois estaria apenas dando outros nomes aos conceitos já existentes na psicanálise e por esse motivo uma abordagem “paralela” não seria necessária. Em um atendimento demonstrativo de Carl Rogers, intitulado Entrevista- com Glória, de 1965, em determinado momento, há o seguinte diálogo:

Página <136>

Começo do diálogo
Cliente: Sim. O senhor sabe o que eu estava pensando agora? Eu — uma pessoa insignificante — agora de repente, estava conversando consigo, pensei, puxa, como. posso conversar tão bem com o senhor, gostaria que o senhor me aprovasse e eu o respeito, e é o que sinto falta, meu pai nunca me falou como o senhor está me falando. Quero dizer, eu gostaria de dizer: “Puxa, gostaria de ter o senhor como pai.” Nem sei por que cheguei a pensar nisso .
Terapeuta: Você até me parece filha minha. Muito amável. Mas você sente falta realmente é do fato de não ter conseguido ser franca com o seu próprio pai (ROGERS, 1986).
Fim do diálogo

Ao término desse atendimento, Rogers faz um breve relato da Abordagem Centrada na Pessoa para o público e faz o seguinte comentário:

Começo do comentário
Os psicanalistas de plantão talvez digam neste trecho que ali estaria um caso clássico de transferência e contratransferência, mas se apegar a isto é diminuir um momento tão íntimo e profundo que só eu e Glória sabemos o que significou.
Fim do comentário

Pelo que entendo, a Abordagem Centrada na Pessoa não questiona se Freud estava certo ou errado em seus conceitos. Também não se questiona se existe ou não a transferência, a contratransferência ou qualquer outro mecanismo estudado pela psicanálise. A grande questão, a meu ver, é que eu me apegar a esses mecanismos não me auxilia em absolutamente nada na relação de ajuda, pois, se estiver atento a esses mecanismos, provavelmente ficarei desatento à relação e à interação com o cliente, que para mim é o que facilita o processo de crescimento da pessoa.

Ficar preso a nomes ou a mecanismos me limita nessa relação e me impede de estar inteiro com a pessoa. Não me importa o nome ou o mecanismo, me importa a interação, o envolvimento, a capacidade em compreender essa pessoa a partir dela, a capacidade de ser autêntico em minhas expressões e a capacidade de ter um acolhimento de forma incondicional.

Página <137>

Ainda que Freud esteja certo e que exista uma relação de transferência no processo psicoterápico, a Abordagem Centrada na Pessoa lida com, ela da mesma forma que lida com qualquer acontecimento, sentimento ou expressão da pessoa. Em outras palavras, não importa para a nossa abordagem se há ou não qualquer um desses mecanismos por parte do cliente na relação. Isto não tem importância nenhuma para o processo da psicoterapia e da tentativa de facilitar condições para seu crescimento.

Rogers dedicou grande parte de um capítulo do livro Terapia centrada no cliente para falar desse assunto, na tentativa de dirimir qualquer dúvida a respeito do tema. Falando da transferência, ele nos diz:

Começo da citação
O terapeuta lida com isso da mesma forma como lidaria,com atitudes similares dirigidas a outras pessoas. Parafraseando e modificando a frase de Fenichel para adaptá-la a essa abordagem seria possível dizer: “A relação do terapeuta centrado no, cliente à transferência é a mesma em relação a qualquer outra atitude do cliente: ele procura compreender e aceitar” (ROGERS, 1951).
Fim da Citação

Em minha opinião, o importante é não perdermos o foco, o envolvimento com a pessoa. E se estivermos preocupados em entender mecanismos ou conceitos, de certo nos perderemos dessa pessoa com toda a sua riqueza de sentimentos e nos perdermos dela em meio às explicações, mesmo que bem intencionadas, que servirão muito mais para a satisfação do psicoterapeuta em se perceber-e se manter como alguém com poderes de desvendar o “inconsciente” do outro, mantendo-se em uma posição de superioridade em relação à pessoa, do que para facilitar condições de ajuda a essa pessoa, e essa postura de observador em nada contribui para esse processo de crescimento.

Página <138>

O que fazer quando percebo que meu cliente não esta crescendo?


Márcia Tassinari
A avaliação do psicoterapeuta ideal deveria estar em sintonia com seu cliente, pois, em se tratando de uma relação igualitária, o que um vivencia, o outro vivencia em alguma intensidade (nem sempre na mesma). Portanto, se tenho a sensação dê que meu cliente não está crescendo, devo convidá-lo a avaliar essa minha sensação como hipótese a respeito deles Nessa abordagem, é o cliente quê sabe melhor dele.


Marcos Alberto
Antes de tudo, é importante ressaltar que uma das inúmeras e grandes diferenças da ACP para as demais abordagens psicoterápicas é que em nossa abordagem o psicoterapeuta não se enxerga como um ser superior na relação, ou seja, o óbvio é que é impossível eu ter certeza de forma tão clara a respeito de algo nessa pessoa, pois tenho convicção de que nessa relação de ajuda eu sou “apenas” um companheiro. Um companheiro ativo e atuante, mas ainda assim um companheiro que não tem poderes de saber da pessoa mais do que ela mesma.

Carl Rogers escreveu inúmeras vezes que apenas a própria pessoa e ninguém mais, além dela, tem de fato a capacidade de saber o que está se passando nela, assim corno as suas motivações e intenções. Para expressar essa ideia, em um de seus livros, ele dá um exemplo a respeito de si mesmo:

Começo da Citação
(...) apenas urna pessoa (pelo menos enquanto eu estiver vivo e talvez para sempre) pode, saber que eu procedo com honestidade, com aplicação, com franqueza e com rigor, ou se o que faço é falso, defensivo e fútil. E essa pessoa sou eu mesmo (ROGERS, 1961).
Fim da Citação

Página <139>

Muitas vezes, ouvindo outros profissionais, sinto que temos a tendência de acreditar muito mais no nosso potencial de “perceber algo no outro” do que no de realmente crermos no potencial dessa pessoa.

De todo modo, quando ouço uma pessoa genuinamente, tendo uma consideração incondicional positiva, empática, e sendo congruente, a tendência é que em muitas situações eu esteja tão concentrado e em sintonia com essa pessoa que eu posso acabar sentindo algo na fala, na expressão ou nas atitudes da sua vida sob um ângulo diferente do dela.

Em minha, opinião, se eu deixar de expressar essa percepção ou sentimento, serei omisso e trabalharei a favor do mito da não diretividade, expressão já discutida neste livro e que o próprio Rogers se desculpou por ter criado, embora não tenha a certeza de ter sido o seu autor.

Começo da Citação
“Nunca consegui saber quem inventou a expressão não diretiva. Se fui eu, peço. desculpas, embora fosse descritiva, sem dúvida, de uma certa fase inicial. “ (ROGERS, 1975) “
Fim da Citação

Como já disse, através da psicoterapia, muitas vezes temos condições de, por estarmos vivendo a relação em sintonia com a pessoa de forma empática, termos algumas percepções do outro que ele ainda não tenha tido.

Pode ser que ele não a tenha por não ter enxergado aquilo até aquele momento, ou por realmente aquilo não ter nada que ver com ele, mas sim comigo, com as minhas expectativas ou com a dificuldade de não interpretarmos a pessoa.

Não me agrada nenhum tipo de expressão vinda do psicoterapeuta como sendo uma verdade do outro. Não creio que temos poderes para isto e tenho a convicção de que a única pessoa a saber de fato a respeito de si é ela mesma.

No entanto, estando em sintonia com a pessoa de forma empática, penso que seja um direito do outro saber o que está se passando em mim em todas as questões que tenham a ver com

Página <140>

ela. Não me agrada dizer ao outro as minhas percepções como verdade, mas também não me agrada a possibilidade de guardar as percepções que eu tenha com relação à pessoa, pois me sentiria desonesto e omisso se assim o fizesse.

Algo que me serve e sempre me ajuda quando tenho alguma percepção ou sentimento com relação à pessoa que atendo é o direito de poder me expressar com o cuidado de deixar sempre claro que é apenas uma percepção, e não uma verdade do outro.

A esse respeito, Gendlin nos diz:
Começo da Citação
O terapeuta pode ser mais ativo e, ao mesmo tempo, apresentar menos imposição e ameaça, se se exprimir — suas imaginações e sentimentos, os desejos e fatos que se revelam nele — desde que o faça clara e explicitamente, como afirmações a respeito de si mesmo ou de acontecimentos que no momento se revelam em seu íntimo. Desta maneira ele se entrega mais abertamente, embora não se imponha a vivência do cliente. Fala de si. Não impõe nem força coisa alguma no espaço vivencial do cliente; não confunde acontecimentos nele com acontecimentos no cliente (GENDLTN, 1967).
Fim da Citação

Muitas vezes, quando isto acontece, acaba sendo algo facilitador na pessoa, pois, de alguma forma, eu consegui através dessa sintonia perceber algo que estava nela e que, por algum motivo, ela ainda não percebia em si. Outras vezes, eu também fui capaz de expressar a minha percepção ou sentimento com relação a algo nessa pessoa e isto não fez nenhum sentido para ela. Nesse caso, prefiro acreditar que a minha percepção tinha a ver com as minhas expectativas e não com ela. Tenho confiança no outro!

De algum modo, aprendemos na universidade ou através de outras abordagens que temos sempre razão.

Já ouvi colegas exclamarem: “Ele está negando esse conteúdo!” Ou: ‘Ainda não chegou o momento de ele perceber!” Já ouvi clientes dizerem que, se o psicoterapeuta falou, é porque deve ter razão, pois é um especialista!

Página <141>

Não quero entrar aqui no mérito de a pessoa estar ou não negando algo. A grande questão para mim é que, mesmo que eu tenha razão e que ela ainda não esteja no momento de perceber tal coisa, se confio de fato no processo da pessoa, isto significa que é importante que eu tenha convicção de que, se isto de fato for importante em outro momento, ela o irá perceber no seu ritmo e da sua forma.

Falar de uma percepção minha com relação à pessoa como sendo uma verdade dela não só não a ajuda, como também me torna prepotente. A esse respeito, Rogers nos fala, dando um exemplo do seu trabalho com grupos:

Começo da Citação
Não aceito bem, como facilitador, uma pessoa que, com frequência, faz interpretações dos motivos ou causas do comportamento dos membros do grupo. Se são inexatas, não ajudam em nada; se são profundamente exatas, podem despertar uma defesa extrema ou, pior ainda, despir a pessoa das suas defesas, deixando-a vulnerável e, possivelmente, magoada como pessoa, especialmente depois da sessões de grupo terminarem. Afirmações como: “Tem de fato uma grande hostilidade latente” ou “Penso que está compensando-se da sua falta essencial de masculinidade” podem perturbar o indivíduo durante meses, causando-lhe grande falta de confiança na sua capacidade de compreendera si próprio (ROGERS, 1970).
Fim da Citação

Como já mencionei, tenho confiança na pessoa e na sua tendência ao crescimento e isto me tranquiliza na relação terapêutica, pois, como companheiro nesse processo, sinto me à vontade  para me expressar como alguém que está totalmente disposto a caminhar junto com essa pessoa que busca ajuda. Dessa forma, sinto-me à vontade para falar das minhas percepções, deixando claro que são minhas e que posso estar enganado e, a partir daí, ter a capacidade de continuar confiando nessa pessoa mesmo quando o que eu digo não causa nenhuma ressonância nela e nela não identifica a minha fala a seu respeito. É imprescindível,

Página <142>

a meu ver, ter a confiança e a humildade em respeitar sempre a soberania da pessoa em seu processo.


É possível usar alguma técnica no atendimento em ACP?


Márcia Tassinari

Se entendermos técnica ia concepção grega de techné, ou seja, como arte ou artesanato, então a ACP seria uma técnica em si, mesma. Entretanto, considerando a utilização atual de técnica como algo a ser aplicado no outro, com uma atitude de especialista, então a ACP não tem uma técnica. Na verdade, a técnica está sempre a serviço das atitudes promotoras de crescimento. Isto significa que o psicoterapeuta pode fazer qualquer coisa desde que atenda às condições necessárias e suficientes para a mudança terapêutica da personalidade. Cada um precisa desenvolver seu “jeito de ser” para promover um clima psicológico seguro para o cliente ou grupo se abrir ou se entregar à descoberta de todas as suas possibilidades.


Marcos Alberto

Acho importante, antes de qualquer coisa, termos a compreensão do que entendo como técnica. É óbvio que quando falamos dessa abordagem, nos referimos a um jeito de ser e a um conjunto de crenças que temos, de que, a partir de determinados princípios, poderemos proporcionar ajuda que pode vir a facilitar as condições de crescimento ao cliente.

A partir daí, penso que determinadas técnicas se contradizem com essa abordagem, pois se utilizo, por exemplo, uma inter-

Página <143>

pretação, uma técnica de condicionamento ou outra qualquer que roube da pessoa o seu direito a sentir-se e ser livre ou que a violente de modo que eu passe a mensagem para a pessoa que eu sei mai dela do que ela mesma, fica impossível utilizá-las por uma questão filosófica de visão de mundo e de visão de pessoa. Se eu creio de fato na importância da soberania da pessoa em se tratando do seu interesse em desenvolver-se e na capacidade da pessoa em se autodirigir, fica ilógico eu ter alguma postura que contradiga essa crença.

Por outro lado, quando falamos de algumas técnicas, como o exercícios psicológicos, embora exista grande resistência por parte de vários profissionais dessa abordagem, a meu ver, desde que bem fundamentadas, aplicadas de forma espontânea, e com alguns cuidados para que não sejam perdidos os princípios m que acreditamos, elas podem contribuir e complementar a relação de ajuda, desde que isto faça sentido para o psicoterapeuta que a propõe e principalmente para o cliente, que é o maior interessado nesse processo.

Meu objetivo é poder expressar a minha opinião a respeito desse segundo modelo de técnicas ou de “exercícios” e a possibilidade de sua utilização dentro da visão centrada na pessoa.

Já citei anteriormente, no capítulo onde exponho a minha visão a respeito dos princípios da Abordagem Centrada na Pessoa, mais precisamente nas considerações finais, alguns mitos que, de certa forma, a meu ver, têm prejudicado o desenvolvimento dessa abordagem.

A partir da confusão que se faz com o mito da não diretividade, criou-se outro mito, que é o da proibição de utilizarmos esse tipo de técnica.

A expressão não diretivo foi usada por Rogers no início da formulação dessa teoria e a sua intenção era dizer que quem conduzia o andamento da relação psicoterápica era o cliente, e não o psicoterapeuta, em função da nossa crença no prin-

Página <144>

cípio de tendência atualizante e que, sob condições especiais, em um ambiente onde houvesse por parte do psicoterapeuta urna consideração empática, congruência e uma consideração incondicional positiva, em um clima favorável, a pessoa teria maiores condições de buscar novas alternativas para o seu desenvolvimento, de forma que pudesse sentir-se mais saudável e em harmonia consigo mesmo e consequentemente com o seu meio. Essa expressão servia para designar que o “poder” na relação psicoterápica era do cliente, e não do psicoterapeuta, que, na relação, era “apenas” um companheiro que buscava facilitar esse contato da pessoa consigo mesma.

Com o passar do tempo, a expressão não diretivo foi recebendo outra conotação por parte das pessoas que utilizavam a Abordagem Centrada na Pessoa como referência e acabou por se distorcer, dando a impressão de que o psicoterapeuta não podia intervir, sugerir ou propor nada para a pessoa.

Uma vez, em um Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa, um profissional apresentou um trabalho de biodança e, antes da apresentação, fez questão de ressaltar que aquilo nada tinha que ver com a ACP. Ao término da apresentação, abriu-se uma roda para que pudéssemos conversar e perguntei à pessoa o motivo pelo qual ela achava que aquela atividade não tinha nada que ver com a ACP. A pessoa não soube me responder.

Uma sensação que tenho é que, muitas vezes, somos passivos e tentamos muito mais nos espelhar na forma como Carl Rogers fazia do que assimilarmos suas propostas de maneira que, a partir delas, tenhamos a liberdade de as utilizarmos de forma que combine com o nosso próprio jeito de ser. Prezamos acima de tudo a liberdade, mas, paradoxalmente, nos engessamos na forma como Rogers fazia e o tratamos como um “deus”. Tenho convicção de que, se Rogers tivesse ao longo da vida se utilizado de algumas técnicas, elas teriam perdido a conotação de algo “errado” dentro dessa abordagem e seriam utilizadas de forma natural.

Página <145>

Durante sua vida, em função de suas ideias inovadoras, Rogers foi muito criticado por opositores, mas percebeu que, muitas vezes, as pessoas que faziam mais mal a ele e à ACP eram os seus fieis seguidores:

Começo da Citação
No decurso das duas últimas décadas, habituei-me a ser constantemente atacado, mas as reações às minhas ideias continuam a surpreender- me. Do meu ponto de vista, julgo que sempre propus as minhas ideias como hipóteses de trabalho, para serem aceitas ou rejeitadas pelo leitor ou pelo estudioso. No entanto por diversas vezes e em diferentes lugares, psicólogos, terapeutas e pedagogos atacaram os meus pontos de vista com críticas cheias de violência e desprezo. O seu furor atenuou-se um pouco durante os últimos anos, mas renovou-se entre os psiquiatras, pois alguns deles viam na minha maneira de trabalhar um grande ameaça aos seus princípios mais queridos e mais firmemente admitidos. E talvez as críticas tempestuosas encontrem um paralelo no dano causado por alguns “discípulos”, sem sentido crítico e sem espírito inquisitivo, pessoas que adquiriram para si próprias alguma coisa de um novo ponto de vista e que partiram em guerra contra toda a gente utilizando correta ou incorretamente o meu trabalho e certas teorias minhas. Tive sempre dificuldades em saber quem me tinha feito um mal maior, se os meus “amigos”, se os meus adversários (ROGERS. 1961).

A Abordagem Centrada na Pessoa não possui uma técnica, mas sim alguns princípios e urna proposta de postura, mas ao mesmo tempo não é contrária à utilização de técnicas, como os “exercícios de psicoterapia”, desde que haja alguns cuidados especiais, que façam com que os princípios básicos dessa abordagem não sejam feridos.

O que há em nossa abordagem, a meu ver, é um cuidado para que, a técnica não seja a prioridade da relação ou que ela não exista para satisfazer ao psicoterapeuta. Se existir algum tipo de técnica, a meu ver, ela jamais pode ser utilizada por imposição do psicoterapeuta, mas pode ser sugerida caso o profissional

Página <146>

a conheça e sinta de alguma forma que talvez essa sugestão seja útil a pessoa. A técnica pode ser utilizada desde que seja consentida pelo cliente e desde que o profissional busque seguir o ritmo dessa pessoa, e não o contrário, pois em um atendimento psicoterápico o cliente a prioridade e é ele quem da o caminho do processo.

Em se tratando de técnica Rogers nos diz:

Começo da Citação
Em minha opinião, nada do que acontece com verdadeira espontaneidade pode ser considerado um “truque”. Por isso pode utilizar-se a representação de papéis, o contato corporal, o psicodrama, os exercícios como a que descrevi e vários outros processos quando parecem exprimir o que se está realmente sentindo na ocasião (ROGERS, 1970).
Fim da Citação

Assim como Rogers, entendo que, se há uma proposta de forma espontânea, ela perde a conotação de técnica e, em contrapartida, se sinto que de alguma forma uma proposta possa ajudar o cliente e me omito em apresentá-la em função da “não diretividade” eu estarei sendo técnico, pois me omitirei para cumprir determinado padrão. Não há uma verdade absoluta na Abordagem Centrada na Pessoa e desde que eu tenha em mim os princípios proposto por essa abordagem é imprescindível que eu respeite a minha espontaneidade e o meu jeito de ser.

Muitas vezes, em nome dessa “não diretividade”, nos tornamos rígidos ou manipuladores. A imposição da falta de estrutura passa a ser uma grande estrutura e muitas vezes defendemos a ausência de técnica com tanto autoritarismo por acharmos que o uso de técnica é algo invasivo e autoritário. A meu ver, autoritário é sermos rígidos com relação a qualquer coisa, é nos impormos à pessoa; é acreditarmos que nossa verdade é soberana.

Afirma Maria Bowen: “Penso que uma utilização sutil de poder interfere mais no processo de outras pessoas do que qualquer oferta direta de estrutura, exercícios, alternativas etc.” (BOWEN, 1987).

Página <147>

Particularmente, tenho me afastado cada vez mais desses tipos de exercícios em função de eu não ter mais sentido necessidade de propô-los, embora não me sinta proibido de fazer alguma proposta, caso seja de forma espontânea e respeitando a soberania do cliente em aceitá-la ou não.

Mesmo que eu fosse contra a aplicação de alguma dessas técnica, o que não é o caso, penso que o máximo que eu poderia dizer é que elas não me servem. Jamais me sentiria no direito de dizer que elas não podem ou não devem ser aplicadas na Abordagem Centrada na Pessoa, pois não sou o dono dessa abordagem. Nossa abordagem não tem dono e ao mesmo tempo pertence a todos nós que cremos em seus princípios e nos utilizamos dela para o nosso desenvolvimento pessoal e profissional.

Cabe a cada um de nós nos apropriarmos dela da forma que fizer sentido para nós, sem nos preocuparmos com o consentimento de uma terceira pessoa, ou do próprio Rogers, que passou a vida declinando do título de dono da ACP. Se, ao utilizarmos alguma dessas técnica, precisássemos da aprovação dele, com certeza a teríamos. Neste capitulo mesmo, fiz questão de utilizar uma das várias citações dele, falando a respeito do assunto. Rogers sempre procurou deixar claro que a sua visão pertencia a ele e que não eram verdades absolutas. Sempre nos convidou a pensarmos pelas nossas próprias cabeças. Cabe a nós nos apropriarmos desse poder que, felizmente, não nos foi roubado!


Esther Carrenho

“(...) além da fala, existem outras atividades que podem facilitar a terapia.” Natalie Rogers

Ainda me lembro do dia em que, num grupo de psicólogos, alguém me perguntou: “Você tem formação em psicodrama?” “Sim”, respondi, já percebendo alguns olhos arregalados, expres-

Página <148>

sando espanto por conta da minha afirmação. Confesso que, na minha ânsia de ser aceita pelo grupo, eu estava insegura naquele momento Fiquei perturbada e questionando a mim mesma aonde eu poderia estar cometendo algum erro. Alguns minutos depois, uma colega disparou um discurso criticando o uso de técnicas, alegando categoricamente que o uso das mesmas indicava que o profissional era invasivo e não tinha paciência nem estrutura para aguardar os movimentos da pessoa.

Tudo isto me impactou muito e naquele momento eu não via como explicar e muito menos como defender o uso de algum recurso vindo do psicodrama. Mas por causa da experiência prática que já tinha em clínica, eu sabia que as vivências, quando usadas adequadamente, eram de grande ajuda para que o cliente alcançasse o que estava buscando. Sai dali refletindo sobre meu próprio trabalho e comecei a reler alguns dos livros de Rogers. O primeiro escolhido foi exatamente o último que ele escreveu - Um jeito de ser. E que alívio quando novamente estava diante de um homem de 75 anos declarando sua abertura para novas ideias e o reconhecimento da eficácia de outros trabalhos realizados por outros profissionais. Rogers não estava jogando fora o essencial das suas crenças em psicoterapia. Nem o essencial das suas experiências e afirmações. Mas estava reconhecendo que outras formas de trabalho também promoviam ferramentas para as mudanças desejadas.

Ele afirma:

Começo da Citação
“Durante esses anos, creio que tenho estado mais aberto a novas ideias. As que se afiguram mais importantes dizem respeito ao espaço interno — o reino dos poderes psicológicos e das habilidades psíquicas da pessoa humana. A meu ver, esta área constitui a nova fronteira do conhecimento, o gume da descoberta. Há dez anos eu não faria esta afirmação. Mas as leituras, a experiência e os diálogos com pessoas que trabalham nesse campo mudaram a minha visão. Os seres humanos potencialmente dispõem de uma gama enorme de poderes intuitivos... O biofe-

Página <149>

edback — que veio nos mostrar que se permitirmos funcionar de modo mais relaxado, menos consciente, atendemos a controlar, até certo ponto, a temperatura, os batimentos cardíacos e todo tipo de funções orgânicas (1983, p. 24).”
Fim da Citação

Em seguida, ele cita as melhoras de muitos pacientes portadores de câncer quando submetidos às viyências de meditação e de fantasias que visualizam a superação da enfermidade. Provavelmente, referindo-se ao trabalha de Lawrence LeShan, bem descrito no livro Câncer: um ponto de mutação.

Uma coisa é certa: Nenhum ser humano é capaz de descobrir tudo por mais que viva. E não podemos desprezar todo o trabalho de alguém que se empenhou, observou e pesquisou num território do qual não temos nenhuma experiência Isto é, seja lá quem for, haverá sempre algo que podemos aprender e aproveitar para enriquecer nosso próprio trabalho e experiência.

Meu interesse em psicodrama começou quando percebi, nas leituras dos livros de Victor Dias, um rico material que eu poderia disponibilizar para aqueles que me procuravam, buscando entender e/ou sentir suas próprias realidades. Durante o curso, fui descobrindo que os recursos do psicodrama poderiam ser usados sem que os fundamentos da Abordagem Centrada na Pessoa fossem violentados. Eu poderia continuar acolhendo e aceitando; tendo empatia, fazendo um engate nos sentimentos vivenciados pela pessoa presente conectando-me comigo e sendo transparente, ao mesmo tempo em que me conectava também com meus clientes. E ainda assim oferecer novos recursos para quem eu entendesse que poderia ajudar. E, no geral, ajuda!

Penso que todo e qualquer recurso que possa em determinado momento cooperar para que a pessoa se conscientize de conteúdos ou situações até então bloqueados do seu conhecimento são bem-vindos. Concordo com Rogers (1983, p. 127): “Focalizar ou  adquirir plena consciência de alguma experiência

Página <150>

até então negada acarreta mudanças psicológicas e fisiológicas na psicoterapia e resulta em mudanças comportamentais”.

texto em destaque
“Quero relatar o caso de uma mulher que foi abusada e violentada por vários anos na sua infância. Ela se via travada na vida, mesmo sendo uma engenheira. de sucesso. Via-se perseguida pelo fantasma do homem que abusara dela forma tão cruel. Ela foi obrigada, sob ameaça até de perder a vida, a ficar de boca calada. Isto ficou enraizado dentro dela de tal forma que ela tinha o desejo de me relatar sua história e seus sentimentos, mas a única coisa que saía era alguns gemidos e grunhidos lembrando uma criança assustada, escondida, mais parecendo um animal selvagem. Eu fui paciente e mantive minha escuta nos silêncios dela. Era claro que queria se expressar.

E depois que ia embora, ela me escrevia, relatando tudo que queria dizer e não conseguia. Para ela, havia a crença de que, se falasse em voz alta, na minha presença, destrancaria a boca e sua fala fluiria, se libertando do pesadelo do passado. Eu tinha num canto da sala vários potes de massa de modelar que havia usado numa vivência num atendimento familiar. Senti vontade de oferecer para ela o recurso da massa, e o fiz. Ela aceitou e depois de alguns minutos foi até o canto pegou os potes e foi construindo bonecos que representavam ela, o abusador e sua mãe adotiva. E fez um tipo de teatro com os bonecos contando, dessa forma, alguns episódios, que realmente foram libertadores para ela, dando início a um desbloqueio facilitador da sua comunicação pela fala. E era isto que ela buscava.”
Fim do texto em destaque

Quero citar aqui as afirmações de Natalie Rogers quando se refere ao uso de recursos usados na ajuda da expressão de conteúdos internos, que ela nomeou “Artes Expressivas”:

Estas expressões também são parte de uma poderosa linguagem que se estabelece entre o cliente e o terapeuta. A arte se tor-

Página <151>

na um parte natural do processo terapêutico. Em outras situações, os clientes podem até querer começar com arte e, depois, ao ver sua própria criação, decidam falar de suas experiências. Utilizar as artes expressivas é uma forma muito eficaz para ajudar o cliente a identificar-se com seus sentimentos.

Com respeito o clima de segurança da atmosfera centrada na pessoa, as pessoas que tendem a ser predominantemente racionais e verbais têm oportunidade de permitir que aflorem seus sentimentos de maneira benigna e construtiva.

Por exemplo, quando o cliente perde um ente querido, a luta é tão dolorosa que não há palavras para expressá-la. No entanto, a cor, argila, uma colagem, o movimento e o som contribuem para expressar essa luta de maneira não verbal e é extremamente benéfico. O participante é capaz de liberar fisicamente parte dessa dor e, por sua vez, alcança um pouco de insight pessoal...

Frequentemente, a raiva é profundamente reprimida. No entanto, ao utilizar o movimento e o som em urna sala terapêutica acolhedora e desprovida de ameaças, floresce a tristeza existente por detrás da raiva. Expressar a raiva através da cor e da forma também ajuda o cliente a transformá-la em urna energia útil e criativa.

Texto em destaque
“Outro caso de um empresário bem sucedido no mundo dos negócios, que prestava serviço para uma montadora de carros. Houve uma situação em que uma falha no serviço prestado causou muitas dificuldades para a montadora. E o meu cliente se sentiu apavorado. Viu-se encolhido e assustado diante da sensação de ameaça que dominava seus pensamentos. Pedi a ele que me descrevesse como eram seus pensamentos. Ele me relatou que eram frases acusadoras do tipo: “Viu, você é mesmo um fracassado!” “Tudo que você faz dá em nada.” “Você é um incompetente!” Em seguida, usando os recursos do psicodrama, sugeri que fizéssemos um drama ali.

Página <152>

Eu seria ele e ele seria os próprios pensamentos. Ele aceitou e repetiu as falas se dirigindo a mim, como que incorporando seus pensamentos. Ao mesmo, tempo em que fazíamos o “drama”, eu ia perguntando como ele estava e se tinha alguma percepção nova. Não tinha Ele continuava apavorado diante do problema não resolvido na empresa: Mas para mim já estava claro que, de alguma forma, ele fora levado a crer que era um fracasso. E que, diante de alguma falha, normal em qualquer empresa, toda essa sensação de fracasso se apoderava dele, deixando-o imóvel e sem saída. Pedi então a permissão para que eu o dramatizasse, bem corno seus pensamentos, enquanto ele observava. Ele concordou. Quando ele me viu fazendo o papel dele, que tinha que resolver uma falha, e o papel dos seus pensamentos que o acusavam de fracassado, percebeu de onde vinha o lado aniquilador. Lembrou que sua mãe era muito exigente com as notas na escola. Como ele não tinha tanto interesse em estudar nos padrões curriculares das escolas, tirava notas baixas e quase que diariamente se sentia fracassado e incompetente por não tirar notas altas. Daí para a frente, foi fácil perceber que sua mãe não estava na empresa e que ele não era mais a criança indefesa e desprotegida. Já era um adulto que poderia enfrentar a situação por pior que fosse o resultado. E enfrentou. Renegociou o contrato com a montadora e, junto com a sua equipe, refez o trabalho com resultados positivos.”
Fim do texto em destaque

Quando uma técnica ou recurso não condiz com os fundamentos da ACP?

Primeiro, quando é usado sem a permissão do cliente. Toda e qualquer vivência, técnica ou recurso deve ser explicado para a pessoa e é ela que deve concordar ou não com seu uso ou realização.

Segundo, quando não se sabe o que fazer e se recorre à técnica para preencher o tempo.

Página <153>

Terceiro, quando o cliente silencia e o profissional fica perturbado com o silêncio e arruma algo a ser feito para aliviar sua perturbação.

Quarto, quando se usam o recursos com a motivação de mostrar que sabemos e que somos portadores de vastos conhecimentos.

Encerrando, quero reafirmar que o uso de qualquer recurso no contexto psicoterapêutico dentro dos princípios da Abordagem Centrada na Pessoa deve visar à oferta de ferramentas para que o cliente encontre o que está buscando.


Podemos encaminhar um cliente para atendimento psiquiátrico?

Márcia Tassinari
Se nosso cliente apresentar alguns dos sintomas descritos no CID (Catálogo Internacional de Doenças) e seu sofrimento está comprometendo suas relações interpessoais e/ou seu trabalho, significa que necessita de acompanhamento de outros especialistas para complementar o atendimento psicológico.

Esther Carrenho
Há três situações onde discuto com a pessoa a possibilidade de acompanhamento psiquiátrico.

A primeira é quando percebo que ela apresenta um prejuízo no seu rendimento ou no desempenho de alguma função. É o caso de estudantes que diminuem a capacidade de aprendizado, de trabalhadores que baixam o rendimento na profissão, de do-

Página <154>

nas de casas e mães que deixam de dar conta dos afazeres diários. Há ainda as situações em que o sono ou o apetite se alteram de tal forma — ou para mais, ou para menos — que prejudicam o corpo, trazendo danos físicos e no desempenho das responsabilidades cotidianas da pessoa. O organismo humano estressado não traz benefícios para ninguém. Se há um médico que pode avaliar e indicar um medicamento que possa trazer algum alívio para que a pessoa volte ao desempenho daquilo que ela entende que é da responsabilidade dela, então deve ser usado, claro.

A segunda é quando percebo nos relatos da pessoa sinais de que ela possa cometer alguma violência contra alguém ou contra si mesma.

Texto em destaque
Orlando, engenheiro, 35 anos, é um bom exemplo disto. Veja-o relato dele: “Às vezes, sinto uma fúria dentro de mim. É como se um vulcão entrasse em erupção. Durante meus primeiros anos de vida, fui obrigado a engolir toda a raiva que sentia, vendo meu pai chegar bêbado e bater em minha mãe. Uma das vezes, quanto tinha cinco anos, mordi meu pai, mas ele me deu uma surra. Eu era tão pequeno, mas ficou registrado na minha memória a raiva que senti naquele dia e eu pensava em todas as possibilidades de destruir meu pai E assim fui crescendo. De alguma forma, eu disfarçava todas as contrariedades que tinha e as guardava dentro de mim. Agora tenho, de verdade, destruir alguém que de alguma forma consigas detonar tudo que está acumulado dentro de mim.” Orlando me procurara a pedido do psicólogo do departamento de Recursos Humanos da empresa. Ele era visto como um colaborador de grande potencial. Mas por duas vezes entrara numa discussão que não tinha nada a ver com ele. E numa das situações tinha agredido violentamente um dos homens, quase levando a vítima a óbito. No terceiro atendimento, perguntei para Orlando o que ele achava de um acompanhamento psiquiátrico enquanto juntos

Página <155>

trabalhávamos todas as situações de raiva contida das quais ele quisesse falar. Ele respondeu: “Por favor, isto é o que mais quero. Se existe alguma orientação ou medicação que possa me ajudar no controle do meu comportamento enquanto eu lido com essas sensações da fúria e destruição, agradeço.”
Fim do texto em Destaque

Ainda um outro exemplo é o de Annie, psicóloga, 25 anos, que também veio de um ambiente de muita agressão física, verbal e também muito desamparo. Na menor contrariedade, Anne quebrava tudo que encontrava pela frente. Quando apontei para o tanto de situações onde ela não pudera expressar a raiva das injustiças que sofrera, ela respondeu: “É isto mesmo: Concordo. E quando isto é acionado em mim por coisas que eu quero e não acontecem, eu fico cega e saiu destruindo tudo. É como uma força que vem de dentro de mim e eu não consigo segurar.” Anne concordou em ter o acompanhamento psiquiátrico enquanto estava em psicoterapia. Aos poucos foi esvaziando seu tanque emocional de explosivos e atualmente não usa nenhum tipo de medicação e dispensou o acompanhamento médico.

A terceira situação é quando a pessoa acredita que deve procurar um psiquiatra. Um dos princípios mais importantes, ao meu ver, da ACP, é justamente o respeito pela pessoa e pelo o que ela entende ser necessário ou não para ela mesma. Então, nessas situações, conversamos sobre as razões que ela entende necessárias ao acompanhamento médico e respeito a decisão, seja qual for, tomada por ela.

Página <156>

Qual é a fraqueza mais frequentes dos profissionais da ACP?

Esther Carrenho
Não sei se eu diria que é exatamente uma fraqueza, mas acho que há algumas confusões que são frequentes entre os praticantes dos princípios que foram defendidos por Rogers.

Maria Bowen já fala sobre isto no livro Quando fala o coração. Ela observa que é possível que profissionais da psicologia escolham a orientação para trabalhar em psicoterapia de acordo com suas deficiências:

Começo da Citação
A psicanálise atrai pessoas que estão mutiladas em seus sentimentos e são altamente intelectuais. (Elas adoram dar uma de detetive.) A abordagem junguiana permite às pessoas que estão com medo de lidar com a realidade externa penetrar mais e mais interiormente e lidar somente com o mundo criado por elas mesmas. Pessoas que têm gana de poder podem se sentir confortáveis com o modelo da Gestalt e os controladores podem optar por modificações de comportamento. Vejo o modelo “rogeriano” não diretivo de psicoterapia muitas vezes como uma maneira de encobrir a passividade e o medo de cometer erros, ou seja, tirando o corpo fora. (SANTOS, 1987, p. 120).
Fim da Citação

Uma das atitudes mais positivas que vejo é quando nos tornamos cientes de quais são nossas possíveis fraquezas ou confusões, como profissionais. Dessa forma, poderemos ser acolhedores para com nosso próprio jeito de ser e, se necessário, buscar um crescimento maior onde percebemos que possa existir alguma falha. Uma das deficiências que ainda percebo em mim é sobre a escuta. Demorei anos para perceber que em muitas situações a pessoa que estava comigo, ou num grupo onde era facilitadora, ainda estava falando e eu já estava preparando a resposta. Se eu me ocupo em preparar a resposta enquanto o outro fala, é óbvio que já deixei de escutá-lo profundamente. E por causa dessa deficiência, em muitas situações fui invasiva, dando antes do

Página <157>

tempo adequado uma resposta que, felizmente, em geral, não era ouvida. O bom era que eu percebia que o que falei; às vezes, nem fazia sentido, porque eu não tinha tido paciência suficiente para esperar que a pessoa chegasse até o fim da sua fala. Aprendi muito, nesses muitos anos, como conselheira e psicoterapeuta; mas ainda percebo que tenho um longo caminho a percorrer na arte de ouvir profundamente o que o outro tem a dizer até que ele se esvazie totalmente do seu desejo de falar e, aí sim, posso dar minha resposta ou com alguma coisa que sei, ou que sinto, ou que percebo, ou algo da minha intuição, ou simplesmente posso também responder com o meu silêncio, por não ter nada a expressar por palavras.

Algumas confusões que tenho visto acontecer no meio acepiano: a confusão entre democracia e desorganização. Em nome da democracia, é comum não se organizar, não informar e não providenciar o mínimo que um evento ou urna reunião necessita. Outra confusão é entre não diretividade e cuidados para que o cliente tenha o melhor e desfrute de um clima acolhedor no local onde será atendido, enquanto mantém um vínculo psicoterapêutico. Penso que é necessário cuidar do ambiente, do local, dos móveis, tendo em foco as pessoas que virão para o local sem deixar de considerar a si mesmo. Confunde-se também ter uma atitude congruente com, má educação, impulsividade e algumas vezes até grosseria. Acho que esta é uma confusão que não se faz muito com os clientes, mas acontece com frequência nos eventos de convivência entre colegas e outros profissionais da relação de ajuda. Muitos são incapazes de conter, pelo menos por algum tempo, alguma ofensa ou algo feito ou dito por um outro, que incomoda. E reage derramando todo tipo de impropérios com a alegação de que está praticando a congruência. Isto pode ser uma transparência de como se lida com situações que incomodam, mas, honestamente, não acho que foi isto que Rogers quis dizer quando se referiu a congruência. As reações

Página <158>

rápidas e impulsivas podem bem ser um sinal de que aquela pessoa não consegue receber algo, contatar seus sentimentos, refletir e depois decidir qual a melhor resposta para aquela situação. É claro que situações como esta dão a oportunidade para que cada um se avalie. Enquanto uns percebem como respondem numa situação de incômodo, outros podem se avaliar em como recebem respostas impulsivas, sem reflexão. O que tenho observado é que, nas impulsividades, há possibilidade também e aprimoramento em como expressar o que percebemos em nós mesmos, isto é, em como praticara congruência.

Outra confusão que acredito existir é a crença de que o conhecimento teórico é menos importante que a aceitação para a interação psicoterapêutica; não se buscam cursos, treinos nem leituras, onde se adquire mais conhecimento. Para mim, isto se faz necessário, e o conhecimento pode ser requerido pelo cliente. Nunca me esquecerei de um homem que, em determinado atendimento, me fez uma pergunta. Eu entendi que deveria respondê-la de acordo com os meus conhecimentos. No final do atendimento, senti um mal estar porque parecia que eu tinha dado uma aula. Comuniquei a ele meu incômodo: Ele respondeu: “Achei ótimo! Foi o melhor encontro que tivemos neste ano. Ajudou a esclarecer muita coisa dentro do meu processo.”

Não tenho dificuldade nenhuma em responder “não sei” quando não tenho resposta para alguma pergunta ou não sei o que fazer em determinada situação. O que aprendi nesse dia é que o meu conhecimento não deve mesmo ser uma plataforma na qual eu me coloco para me achar capaz de atender esta ou aquela pessoa. Mas quanto mais eu conheço, mais tenho para deixar à disposição do outro para que ele possa tirar proveito,  caso queira e quando se fizer necessário.

Outra situação é aquela em que se confunde falta de direção com não ser diretivo. Muitas pessoas apresentam dificuldades em determinar metas, alvos e propósitos e chamam isto de não

Página <159>

diretividade. “Não ser diretivo não é não ter direção”, falou muito bem Mauro Amatuzzi no primeiro Fórum Paulista da Abordagem Centrada na Pessoa, realizado em Vinhedo em 2006.

Há ainda a confusão entre liberdade e falta de compromisso Ter liberdade de escolha não significa irresponsabilidade. Pode se até escolher não fazer o que se comprometeu em fazer antes, ou o contrário. Mas não podemos deixar de assumir as consequências e os possíveis danos das nossas escolhas. E a vida ensina que quem quiser receber alguma credibilidade em seu trabalho e na forma de exercer a liberdade terá que fazê-lo com responsabilidade.


A Abordagem Centrada na Pessoa indica uso da medicação?

Esther Carrenho
Esta é urna pergunta que revela uma das preocupações dos tempos modernos. Segundo dados de 1997, a indústria farmacêutica só perde, em faturamento, para a indústria bélica (Site www. acupuntura.org.br, 2010). Muitas pesquisas são feitas. Nem todas se transformam em medicamentos que serão aproveitados. Mas as que realmente dão certo ou que, pelo menos, se acredita que darão certo, e se transformam em medicamento são em números absurdos. Estamos num sistema capitalista de consumismo exagerado por muita gente e lucros desenfreados para uma minoria. A indústria farmacêutica está nessa minoria. Seria muito bom se todo e qualquer medicamento fosse feito com o intuito de ajudar a curar. Mas não é isto que observamos. Muitos medicamentos são fabricados exclusivamente para serem vendidos. Já relatei, no meu livro Depressão (Carrenho, 2007),

Página <160>

uma reportagem da Folha de S. Paulo, alegando que a indústria cria doença para vender a cura. Às vezes, me ocorre que alguns profissionais da saúde, se pudessem, decretariam o uso de antidepressivos nas caixas de água para uso da população. Isto sem contar que muitos comportamentos tidos como normais há menos de um século hoje são vistos como doentios e anormais. As crianças que na minha infância eram vistas como espertas e interessadas em saber tudo, hoje são vistas como hiperativas e, são diagnosticadas como necessitadas de medicamentos. As que eram tidas como crianças mais sossegadas e reflexivas hoje são medicadas com estimulantes para se parecerem com a maioria. Por outro lado, quero reconhecer também que os remédios podem ser de grande ajuda quando usados adequadamente para promover a cura e ou aliviar o intenso sofrimento tanto do corpo como da psique.

Acredito que todos os profissionais que trabalham com o que chamamos de relação de ajuda, principalmente da área psicológica, devam ter o conhecimento do esquema de consumismo e da manipulação que está por trás da produção de tantos medicamentos. Esquemas estes que têm sido fortemente denunciados pela imprensa e por algumas pessoas, formadoras de opinião, que não temem nem mesmo perder a própria vida.

Como psicoterapeutas, podemos ajudar uma pessoa a refletir, caso ela pergunte sobre medicação, se ela vê ou não como necessário o uso da medicação. Como acreditamos nos recursos internos da própria pessoa para caminhar na direção do, seu próprio crescimento, cabe a nós promovermos condições já relatadas em capítulos anteriores, para que ela faça sua escolha coerente com o que acredita e não porque o psicólogo disse isto ou aquilo.

Atendo pessoas que escolheram tomar alguma medicação, para alívio da angústia, enquanto reviam situações doloridas das suas vidas que estavam no presente, interferindo no desempe-

Página <161>

nho do seu potencial tanto no campo profissional como nos relacionamentos. Conheço outros que, ao experimentarem a medicação, sofreram tanto com os efeitos colaterais que preferiram ficar com mal-estar da depressão, tendo consciência de que aspecto depressivos e tristes faziam parte da sua vida. E conheço outros ainda que, ao entrarem profundamente no processo psicoterapêutico, optaram por uma medicação ansiolítica, que os relaxassem um pouco; ajudando-os a descansarem e a dormirem bem, para darem conta de tudo que tinham para fazer na vida. E conheço outros por fim que nunca quiseram medicação nenhuma e escolheram suportar o peso dos sofrimentos decorrentes de perdas e fracassos e também sofrimentos decorrentes da aflição psicológica.

Sempre que alguém me faz a pergunta: “Você acha que devo tomar remédio?”, respondo devolvendo a pergunta: “O que, você acha?” E, surpreendentemente, todos sabem resposta a respeito de si mesmos nessa questão. Às vezes, me perguntam: “Se você pudesse receitar algum medicamento quando é que você indicaria?” Respondo contando a história do meu médico, clínico geral.

Texto em destaque
Houve uma vez em que eu estava muito deprimida e chorando ininterruptamente, por causa de uma situação que interpretei como uma injustiça cometida contra, mim. Tinha consulta marcada com esse médico. Quando ele viu meu estado, silenciou e esperou pacientemente que meu choro fosse cessado, pelo menos um pouco. Ouviu tudo o que eu quis falar naquele momento e amorosamente me perguntou: “Você está conseguindo trabalhar? Está conseguindo dormir e descansar o corpo? Está conseguindo se concentrar nos relatos dos seus pacientes?” Fui respondendo sim a todas essas questões. Aí ele perguntou: “Você acha que precisa alguma medicação para ajudar um pouco nesse momento tão dolorido?” Respondi que não

Página <162>

e ele respeitou minha escolha. Nas ficou bem claro que, eu não estivesse dormindo, nem conseguindo trabalhar e quisesse, ele me receitaria alguma medicação de alívio. Entendo que há situações onde uma pessoa possa apresentar um alto grau de agressividade ou de sofrimento mental, a ponto de quem está por perto correr risco de sofrer prejuízos e por isso muitas vezes se torna necessário alguma medicação que limite essa pessoa, ajudando-a a não causar danos em outros e a controlar melhor sua agressividade ou possíveis confusões mentais. Mas penso, que essas situações são exceções.
Fim do texto em destaque

Considerando-se quem atendo em psicoterapia, não sou contra nem a favor da medicação. Mas sou totalmente a favor de respeitar à pessoa. E contra qualquer comportamento ou atitude que controle ou manipule o outro. Para isto é preciso escutá-la e entendê-la, permitindo que ela mesma vá tomando sua decisão e mudando o que decidiu, se assim for necessário.


É importante que o psicoterapeuta faça terapia?

Esther Carrenho
É muito, mas muito importante mesmo que um psicoterapeuta cresça no conhecimento de si mesmo! Se esse crescimento ocorrer através da psicoterapia ou através das próprias vivências, ou de qualquer outra maneira, não importa. O que importa é que haja no profissional uma abertura para um conhecimento cada vez maior de quem ele é. E penso que isto vale até o fim da vida.

Rogers (1961, p:73) afirma que “quanto mais o terapeuta

Página <163

souber ouvir e aceitar o que se passa em si mesmo, quanto mais ele for capaz de assumir a complexidade dos seus sentimentos, sem receio, maior será o grau de congruência”.

Ouvir e aceitar o que se passa em si mesmo exige um constante crescimento. A psicoterapia não é a única forma de crescimento, mas, por ser algo metódico e planejado, é possível que seja um dos meios mais eficientes e quem sabe até mais rápidos. Aqueles que não se esquivam de constantemente olhar para dentro de si sabem que isto faz parte de um processo muitas vezes dolorido e difícil. Rogers (1961, p. 17) também experimentou isto: “Ë certo que a prática da terapia é algo que exige um desenvolvimento pessoal permanente por parte dó terapeuta, o que as vezes é penoso, mesmo se, a longo prazo, provoca uma grande satisfação.”

E um pouco mais à frente, no mesmo livro, Rogers (1961, p. 124-125), referindo-se ao processo de busca da realidade do eu de uma pessoa, diz: “Essa exploração, se torna mais perturbadora quando se veem envolvidos em remover as falsas faces que não sabiam ser falsas faces (...). Remover uma máscara que se acreditava constituir parte de seu verdadeiro eu pode ser uma experiência profundamente perturbadora...”.

O crescimento, numa psicoterapia que valoriza a interação, é uma via de duas mãos. As descobertas podem acontecer tanto na vida de quem busca ajuda como na vida do profissional. Penso que o profissional que for corajoso o suficiente para ver e rever cada situação que o mobiliza poderá aproveitar aquelas que apontam para comportamentos e atitudes que não são do seu agrado.

Marcos Alberto
Uma das muitas coisas que faz com que eu me sinta identificado na Abordagem Centrada na Pessoa é a ausência de regras. O

Página <164>

que é imprescindível que exista nessa abordagem é a confiança na pessoa, pois caso isto não exista, mesmo que de forma bem intencionada, é provável que eu tenda a manipulá-la ou a direcioná-la para determinado caminho que tenha a ver com os meus valores e crenças, ou com determinados valores crenças sociais.

Olhando sob a perspectiya de não termos regras, seria uma grande incoerência a afirmação de que o psicólogo deve fazer psicoterapia. Estou convencido, por motivos óbvios, que psicoterapia é algo importante para qualquer pessoa que tenha interesse em buscar possibilidades desse autoconhecer e que não haverá ajuda se a pessoa for obrigada a participar de um processo psicoterápico, pois, se a pessoa não estiver de fato presente, não haverá processo.

Tenho medo das regras e me sinto incomodado quando ouço de profissionais de outras abordagens a respeito da obrigatoriedade do psicoterapeuta fazer psicoterapia. A única pessoa capaz de sentir a necessidade de fazer ou não é a própria pessoa. Se a pessoa se submeter a um atendimento psicoterápico por imposição de determinada abordagem, significará uma agressão à pessoa, pois não estará havendo um movimento de forma legítima que venha de dentro pra fora, tão fundamental para o processo de crescimento.

De toda forma, vejo como algo extremamente preocupante quando o psicoterapeuta não é alguém que tenha interesse em se autoconhecer, pois isto me traz a sensação de que será pouco provável que ele facilite condições de ajuda ao cliente por não estar aberto a si mesmo. Nesse sentido, vejo que á psicoterapia pode ser de grande ajuda para que o psicoterapeuta busque em si uma maturidade maior e uma liberdade maior para poder participar de forma mais inteira e ativa na facilitação do processo de crescimento do cliente.

Nesse sentido, Maria Bowen faz o seguinte comentário:

Página <165>

Começo da citação
“Mesmo Rogers chega à desconfortável conclusão (eu não sei por que Rogers se sente desconfortável com isto) de que, quanto mais psico1ogicamente maduro e integrado for o terapeuta, mais útil é a relação que ele provê” (BOWEN, 1987).
Fim da Citação

Na relação de ajuda, a meu ver, só é possível que eu esteja de fato com o cliente se tiver a capacidade de me livrar dos meus princípios e valores pessoais. É fundamental que eu entenda que as minhas verdades servem apenas para mim, pois sem essa convicção é muito provável que eu não esteja verdadeiramente aberto ao campo experiencial do outro. Fica evidente que é muito fácil respeitar, acolher e aceitar o jeito de ser do outro quando ele tem valores que se assemelham aos meus. O difícil, em minha opinião, é termos essa mesma capacidade quando os valores da pessoa são opostos às minhas convicções.

Durante a minha vida profissional, já ouvi muitas histórias de profissionais que dificultaram o crescimento da pessoa por acreditarem nas próprias verdades como sendo verdades universais ou absolutas e que, a partir dessas “verdades”, tendem a “empurrar” a ‘pessoa para determinada direção. Eu mesmo, em meus piores dias, já me peguei com esse desejo, muito bem intencionado, de direcionar a pessoa para determinado caminho que julguei, por algum motivo, que seria mais fácil para ela. Toda vez que me percebo fazendo isto, tenho verdadeiro calafrio. Busco, ao longo de minha vida profissional e pessoal, cada vez mais me distanciar das “verdades absolutas”.

Tenho convicção de que o processo de crescimento da pessoa diz respeito a ela e isto me alivia quando consigo desvincular as minhas “verdades” das verdades dela, pois dessa forma consigo ter o mesmo respeito pelo cliente, independente dos seus sentimentos e escolhas.

A esse respeito, Rogers nos diz:

Começo da Citação
Na relação terapêutica, algumas das experiências subjetivas mais inten-

Página <166>

sas são aquelas em que o cliente sente dentro de si mesmo o poder nítido da escolha. Ele é livre - para se tornar no que é ou para se esconder atrás de uma fachada; para progredir ou para retroceder; para seguir por caminhos que o destroem ou que destroem os outros, ou caminhos que o enriquecem; ele é literalmente livre para viver ou para morrer, tanto no sentido fisiológico como no sentido psicológico destes termos (ROGERS, 1961).
Fim da Citação

Corno poderei ter esse desprendimento se não estiver emocionalmente maduro para lidar com as diferenças e as consequências dessa liberdade?

Penso que o psicoterapeuta que se submete a um processo psicoterápico como cliente terá grandes condições de lidar com os seus valores e com a percepção de que estes, por mais que faça sentido a ele, não podem ser considerados como valores universais e que o processo da outra pessoa pertence a ela em toda, a sua singularidade. Através da psicoterapia, o psicoterapeuta cliente terá, provavelmente, maiores condições de compreender em si as suas limitações e dificuldades e em consequência terá maior possibilidade de respeitar o seu cliente em suas limitações e dificuldades. A minha percepção é de que quanto mais eu tenho claros os meus valores, menos eu tenho necessidade de querer que o outro se identifique com eles e, em consequência, terei maiores condições de respeitar o ritmo é a individualidade do cliente.

Quanto mais maduro o psicoterapeuta for, mais condições ele terá de ser autêntico com a pessoa, tendo a capacidade de estar genuinamente presente na relação, deixando de ser mero espectador do processo do cliente ou, ainda, terá maiores condições de deixar de lado as suas interpretações e julgamentos nessa relação.

Para que exista uma ajuda real é necessário que exista uma pessoa real, é necessário que o psicoterapeuta seja uma pessoa real, companheira ativa na relação psicoterápica. Isto significa

Página <167>

que quanto mais o psicoterapeuta estiver em sintonia como seu próprio processo de crescimento, maiores serão suas condições de não ter medo de ser ele mesmo nessa elação, o que, a meu ver, em muito contribui para a facilitação no processo psicoterápico do cliente.

Rogers contribui com essa questão, crendo que o psicoterapeuta maduro terá maiores condições de ser ele mesmo e que isto facilitaria maior profundidade e perspectiva de ajuda na relação psicoterápica:

Começo da Citação
Nossa vivência reforçou e ampliou profundamente nosso ponto de vista de que a pessoa que é abertamente capaz de ser ela mesma naquele momento, como é capaz de ser nos níveis mais profundos, é o terapeuta eficiente. Talvez nada mais tenha qualquer importância (ROGERS, 1967).
Fim da Citação

Muitas vezes, nós profissionais que os identificamos com a Abordagem Centrada na Pessoa, e que pregamos a liberdade, temos a tendência de acreditar que ser livre significa a possibilidade de o outro caminhar na direção dos seus desejos de forma pura. A meu ver, quando falamos de liberdade, nos referimos à possibilidade de a pessoa se consultar de forma inteira e intensa para que tenha condições de decidir caminhar para qualquer caminho que julgue ser importante para si, levando em conta todos os ângulos de suas vivências e valores, e isto, em muitas situações, pode movimentá-la a chegar a conclusões que talvez levem o psicoterapeuta a ter que lidar com as suas próprias frustrações, caso esteja esperando alguma determinada conduta do cliente.

Novamente, aí, acredito que para nos protegermos desse risco temos que estar totalmente livres dos nossos valores na relação psicoterápica. Para isto o psicoterapeuta busca condições de se autoconhecer através de psicoterapia ou de outra forma que entenda como ajuda a si é de fundamental importância para

Página <168>

que, sentindo-se uma pessoa melhor, tenha condições de estar de forma mais visceral com o cliente.


Existe a “a1ta”,segundo a ACP?
Esther Carrenho
Na ACP, não se vê como doente a pessoa que busca a ajuda psicoterapêutica. E o contrário, entende-se que a pessoa que busca ajuda é justamente porque ela mesma percebe que há possibilidade de viver melhor e está buscando esse caminho. Então só por essa busca já podemos dizer que é uma pessoa bem saudável. Se a pessoa não é vista como doente, ela não tem do que sarar. Então, os critérios que sobram para a interrupção do vínculo psicoterapêutico são a escolha do cliente de não dar continuidade e algum possível mal-estar, ou algo mal resolvido junto ao profissional, que impede uma boa interação com a pessoa que está sendo atendida.

Texto em destaque
“Encaminhei para um colega, que vou chamar de Paulo, uma criança filha de uma pessoa que estava em psicoterapia comigo. Depois de três meses, esse colega, iniciante como psicólogo, me ligou para dizer que não via necessidade da presença de um psicólogo na vida da criança. Indaguei o porque dessa conclusão. Ele me respondeu: “A mãe veio com a queixa de que a menina mente e não se expressa. Eu não vejo nada disto. Comigo ‘ela nunca mentiu e se expressa bem. É muito bom atendê-la. Ela gosta de vir e cada dia sinto que há uma proximidade maior entre eu e ela. Posso continuar, mas vou apenas brincar com ela.” Rapidamente, enquanto eu ouvia o

Página <169>

relato do meu colega, passou pela minha cabeça o histórico familiar dessa criança, que eu conhecia bem par atender a mãe: o pai lhe dava alguma atenção, mas não provia para as necessidades primárias da criança e era separado da mãe. Ela era gêmea de uma irmã que apresentava dificuldades motoras e por isso um pouco protegida pela mãe. Tinha um irmão mais velho, filho de ai diferente, também separado da mãe, que se ausentava quase que o dia todo, trabalhando para o sustento dos três filhos. Era nítida a falta que a menina sentia de figuras parentais. Tanto do pai como da mãe. Os avós moravam próximos, mas também não cultivavam vínculos afetivas com as crianças. Enfim, meu colega já tinha percebido que era uma criança muito só, mesmo sei do assistida por empregados que faziam bem suas funções, mas também não eram afetuosos. Enquanto passava isto pela minha memória, eu ouvia meu colega dizer “é muito bom nosso tempo juntos; cada dia somos mais próximos um do outro”. E ao mesmo tempo ele acreditava que aquela menina não precisava mais de psicoterapia. Perguntei-lhe então: “Quando é que alguém precisa de terapia? Como. é que você avalia isto?” Nesse momento, ele caiu em si e respondeu: É. Não sou eu quem determino a necessidade da terapia. É a pessoa quem sabe se é o que ela precisa não é?”
Fim do texto em destaque

Lembrei-me dos escritos de Rogers “é o próprio cliente que sabe aquilo de que sofre,  qual a direção a tomar, quais problemas são cruciais, que experiências foram profundamente recalcadas”.

E nem precisei responder. Paulo percebeu que por alguma razão ele havia se esquecido de que a psicoterapia de uma criança não se dá, necessariamente, em cima da queixa da mãe ou pelo tempo que se atende a criança. Que um processo psicoterapêutico que tem como referência a Abordagem Centrada na Pessoa se dá muito mais pela interação relacional entre o psicoterapeuta e a pessoa. E Paulo se sentia muito bem atendendo a menina

Página <170>

e já tinha verificado que ela, cada vez mais, construía com ele um vínculo não só psicoterapêutico, mas também afetivo, coisa que ela não tinha oportunidade de fazer na vida. Se tinha algo com que Paulo não precisava se preocupar, era se ele deveria ou não continuar na vida daquela criança.

Sempre que sou questionada por alguém em psicoterapia sobre o tempo da “alta”, respondo: “Nunca! Mas você pode se dar ‘alta’ quando quiser. E mesmo que eu ache que não seria a hora da sua saída, concordarei e respeitarei sua decisão, porquê  ninguém melhor que você para saber qual é a hora de sair.”


Como lidar com o silêncio em Psicoterapia?

Esther Carrenho
“Uma pausa longa por parte do cliente frequentemente é muito frutífera.” Carl Rogers

Para lidar com o silêncio do outro, primeiro é preciso lidar com o próprio silêncio. Só quando não temos medo do abismos silenciosos que habitam dentro de nós mesmos é queremos recursos psicológicos para lidarmos e escutarmos o silêncio daqueles que buscam ajuda. Muitas vezes, nossos conteúdos internos, oriundos do passado, são tão assustadores que preenchemos nossos vazios com todos os tipos de barulhos, para evitarmos o confronto amedrontador que existe em nós mesmos. “O passado só sai quando o silêncio é grande”, diz Rubem Alves (1990). Faz-se necessário que um profissional da relação de ajuda mergulhe dentro de si mesmo e se reconcilie com tudo que faz parte de sua história, se quiser caminhar nas profundezas da alma de quem o procura.

Página <171>

Gosto muito do poema de Nikos Kazantzakis, que nos convida a cavar até encontrar tudo que faz parte da nossa interioridade:

Uma ordem soa dentro de mim:
Cave! O que você vê?
Homens e pássaros, águas e pedras.
Cave mais fundo! O que você vê?
Ideias e sonhos, fantasias e relâmpagos!
Cave mais fundo! O que você vê?
Não vejo nada! Uma noite silente, tão densa quanto a morte. Deve ser a morte.
Cave mais fundo!
Ah! Não posso penetrar a parte escura. Ouço votes e choro. Ouço o alvoroço das asas na outra margem.
Não chore! Não chore! Eles no estão na outra margem. As vozes, o choro e as asas estão dentro do seu coração.
(MOUSTAKAS, p. 70)

Cabe ao psicoterapeuta “escutar” o silêncio do cliente. É necessário sair de si mesmo e conectar-se com o silêncio do outro naquele momento e, na medida do possível, facilitar para que a própria pessoa possa entendei definir, aceitar e mudar, se assim achar necessário,sua ausência de palavras.

Há o silêncio onde a pessoa quer falar, mas a dificuldade que apresenta em se expressar tem que ver com o seu relacionamento com o profissional. Essas dificuldades podem ser vergonha diante do profissional, medo de que não seja aceita, de que a estima recebida diminua e ou medo do julgamento moral.

Outra dificuldade pode estar relacionada à consciência de que a pessoa já tem da intensidade dá dor envolvida nos fatos a serem expressados. Ela teme reviver toda a dor novamente, em geral, por ignorar que é justamente o vivenciar a dor reprimida que abre um caminho para a possibilidade da integração dessa experiência como algo sedimentado e não mais dolorido.

Página <172>

Texto em destaque
Célia tinha esse medo. Sua mãe falecera quando ela tinha apenas seis meses. Seu pai a entregou juntamente com mais duas irmãs a uma instituição, onde elas ficaram no aguardo de pais adotivo. Aos dois anos ela foi adotada por um casal que era responsável por um asilo. Eles deram a ela tudo que ela precisava, mas não foram afetivos. Não lhe davam carinho, nem colo e, diante de qualquer comportamento de desobediência, normal para qualquer criança, Célia era severamente corrigida. Como é uma pessoa muito sensível, ela vivia um verdadeiro terror cada vez que percebia que era punida, porque os castigos em geral ocorriam na frente de outras pessoas. Foram anos de pavor, sentimentos de vergonha, raiva, impotência e muita dor. Célia chegava para a terapia, procurava um canto da sala e literalmente se escondia na tentativa de que dessa forma pudesse expressar o que tinha ocorrido e o que sentia. Não conseguia. Houve atendimentos onde ela ficava mais da metade do tempo em silêncio. Muitas vezes, falava a primeira palavra e ficava repetindo essa palavra e a segunda nunca vinha.

Tentei facilitar das formas que naquele momento eu entendia serem melhores. Por exemplo, perguntei qual era o sentimento do momento. Mas todas as minhas tentativas não ajudaram Célia a falar. E, no entanto, ela continuava afirmando que queria conseguir falar. E temia que eu desistisse dela. Afirmei mais de uma vez que ela podia silenciar o quando entendesse necessário e que podia ir falando ou se expressando aos poucos, com quisesse e da forma que ela pudesse dar conta. Meu respeito e meu caminhar junto no silêncio de Célia foi o que mais ajudou para que aos poucos ela fosse se expressando. Atualmente, Célia já faz uso da fala em quase todo seu tempo em psicoterapia.

Há outro tipo de silêncio onde a pessoa já sabe da impor-

Página <173>

tância de verbalizar algum fato ou conteúdo emocional, mas, mesmo lembrando do que deve ser dito, resolve não falar naquele momento, porque não quer lidar com o dolorido daquela situação. Não vejo isto como resistência, como é visto em outras abordagens, e penso que devemos deixar a pessoa livre para ela falar quando achar que deve. Em geral, a liberdade que se dá para que ela fale quando quiser facilita e abrevia o tempo para que ela se veja pronta para se expressar.

Há ainda o silenciar porque a pessoa está refletindo, pensando e fazendo ligações dentro de si. São aquisições necessárias dentro do seu processo de busca e de crescimento. É um silêncio muito mais produtivo do qualquer fala. Muitas falas tem o poder de exterminar as sementes de crescimento que nascem na direção da construção de uma identidade mais coerente, ligando o interior ao exterior da pessoa.

Lembro-me de um homem que sempre que chegava na minha sala, sentava e ficava uns 10 minutos em profundo silêncio. Sem que eu perguntasse, ele mesmo me dizia: “Estou pensando no que quero falar hoje.” Ou então dizia: “Estou escolhendo o que é mais importante para falar primeiro.”

Quero deixar aqui mais uma situação que ocorreu durante um atendimento.

Texto em destaque
Uma jovem que vou chamar de Vivien, em determinado momento de um dos nossos encontros, parou de falar. Como eu estava profundamente em conexão com ela, perguntei, depois de mais ou menos dois minutos: “O que aconteceu; Vivien?” Ela continuou em silêncio. Como me pareceu que a razão tinha que ver com alguma coisa acontecida ali na minha sala, voltei a falar: “Quer me falar o que está passando na sua cabeça? Talvez eu possa ajudar.” Finalmente, ela respondeu: “Você não está me entendendo e fico com muita raiva quando não sou compreendida!” Nesse caso, foi um silêncio provocado

Página <174>

involuntariamente por minha postura, que ela sentiu como rejeição. Mas, na verdade, não havia incompreensão e muito menos rejeição da minha parte. Apenas eu ignorava que determinadas atitudes ou falas poderiam detonar nela sentimentos hostis que bloqueavam a expressão E a partir daí o diálogo surgiu novamente e pudemos fazer do episódio um encontro enriquecedor tanto para ela como para mim.
Fim do texto em destaque


Como se dá a supervisão em Psicoterapia na ACP?

Esther Carrenho
“A fecundidade sempre significa vida renovada, vida que se manifesta de maneiras novas, vigorosas e singulares: uma criança, um poema, urna canção, uma palavra amável, um abraço meigo, uma mão solicita ou um novo entendimento...
Henri Nouwen *(4)

Quando se fala em “supervisão” em psicologia vem a ideia de que um profissional mais velho e experiente vai analisar um caso e como esse caso é atendido por um profissional mais jovem. Depois de analisado, o supervisor passa a ensinar como o supervisionado deve se conduzir no atendimento daquele caso.

Na abordagem centrada na pessoa, não é esta a proposta da supervisão. Penso mesmo que o nome, dessa interação entre os profissionais da psicologia que praticam os princípios da ACP deveria ter outro nome. Quem sabe poderia ser intervisão ou multivisão. Não sei qual nome seria melhor. Então, por serem mais conhecidas, usarei os termos supervisão, supervisor e su-

Página <175>
*(4) Nouwen, Henri J.M - Fontes de Vida — pág. 70

Página <175>

pervisionado, mesmo não sendo as palavras que mais representam esse tipo de trabalho.

Nesse tipo de supervisão, não se tem a intenção de ensinar o psicoterapeuta. Na realidade, pode acontecer e acontece de fato também o aprendizado enquanto há a interação com o supervisor; Mas é um aprendizado de mão dupla. Já houve situações na minha experiência em grupos, onde eu dava a supervisão, em que aprendi muito. Acho que até mais do que o supervisionando. Na minha opinião, a proposta principal da supervisão em ACP é facilitar para que o profissional que busca ajuda se aceite e respeite integralmente sua percepção, sua intuição e seus pensamentos decorrentes do encontro entre ele e o cliente. Parte-se da crença de que o profissional que atende alguém sabe melhor do que qualquer outro sobre o que acontece naquela interação. A supervisão deve oferecer-lhe ferramentas facilitadoras para que ele perceba o mais próximo possível da realidade, o que acontece na sua interação com o seu cliente.

É fundamental que se respeite o jeito de ser, a individualidade, as dificuldades e os limites de cada psicoterapeuta. E a decisão do que deve mudar ou ser aceito é exclusivamente do supervisionado. Essa decisão deve ser coerente com a sua percepção, suas ideias, suas crenças e seus sentimentos, a tal ponto que, se necessário for, possa ser transparente quanto à própria ressonância, para o cliente, decorrente do encontro psicoterapêutico. E esse mesmo tipo de interação deve acontecer entre o supervisor e o supervisionado. Isto significa que o relacionamento entre supervisor e supervisionado deve ser uma intenção profunda dê interesse genuíno, sinceridade e transparência.

Na supervisão em ACP, não se deve buscar o conhecimento e a prática do supervisor. Mesmo reconhecendo que o que leva alguém a ser procurado para supervisão seja exatamente o que essa pessoa conhece e a aplicação desses conhecimentos na prática. A busca principal deve ser um maior conhecimento sobre

Página <176>

si mesmo. Esse autoconhecimento se concretizará na interação com o supervisor e com o grupo, caso a supervisão seja feita em grupo, e revelará o que falta e/ou o que deve ser deixado pelo profissional que busca a supervisão.

O conhecimento teórico é necessário também pode abrir a percepção do supervisionado no seu trabalho. Lembro-me de uma situação em que um homem veio para a psicoterapia porque estava impotente sexualmente. Num encontro com o meu supervisor, falei do quanto me sentia perdida em ajudar o homem a vencer sua própria impotência. Meu supervisor ouviu toda a história e fez um rápido comentário: “As vezes a impotência está na vida, mas se manifesta na relação sexual.” Ao ouvir isto, lembrei-me imediatamente do quanto aquele homem já tinha me falado de como se sentia fracassado no trabalho, e eu estava tão focada na queixa inicial que me tornei surda para o todo de sua fala. E naquele momento o conhecimento do supervisor foi o que mais facilitou para que eu percebesse onde estava falhando. Então, tudo que um supervisor ou um grupo possa conhecer pode ter muita serventia na supervisão se for usado como ferramenta facilitadora para que o próprio profissional perceba e encontre o que busca, no desejo de ser e dar o melhor de si num atendimento.

Rogério Buys (1987) entende que o conhecimento teórico deve ser discutido para um entendimento imediato. Concordo. A supervisão não é um programa, mas pode ser um lugar onde se discute algum aspecto da teoria e como isto se dá na prática, dependendo da necessidade, das dúvidas e dificuldades apresentadas pelos supervisionados.

A supervisão em ACP tem dois focos: o psicoterapeuta e a pessoa em atendimento pelo psicoterapeuta, que já está presente na supervisão. E o único meio de o supervisor conhecer a pessoa em questão é através do supervisionado. Quando temos um profundo interesse pela pessoa que busca a psicoterapia, inter-

Página <177>

nalizamos essa pessoa, sem o comprometimento da nossa individualidade e identidade. No trabalho de supervisão, sugiro aos psicólogos, que apresentem a pessoa internalizada. Alguns não se sentem muito à vontade para fazê-lo, mas a maioria representa a pessoa, como se fosse ela. É surpreendente observar como o simples fato de o profissional “viver” por alguns minutos o cliente internalizado já esclarece tantas coisas para a compreensão do seu atendimento. Os sentimentos e a percepção do  profissional depois dessa vivência são fundamentais para discussão e esclarecimentos das possíveis dúvidas apresentadas por ele. Porém, acredito que também se chega aos mesmos resultados por caminhos diferentes do que relatei acima.

Há quatro aspectos que são os mais comuns a serem esclarecidos num trabalho de supervisão. O primeiro é a percepção de que, em algum momento, os conteúdos emocionais do psicoterapeuta interferiram ou interferem na interação psicoterapêutica.

A supervisão, em psicoterapia não é psicoterapia do profissional, mas, no contexto de supervisão, ela pode apontar conteúdos emocionais ainda não integrados à vida, interferindo na relação psicoterapêutica. E, nesses casos, o profissional pode escolher, por uma entre duas opções. Interromper o vínculo terapêutico com o cliente ou tratar o que foi descoberto na sua terapia individual para que tenha condições de separar o que é da sua história, do cliente.

O segundo é uma compreensão maior do sofrimento e/ou dificuldades do cliente, facilitando assim uma compreensão empática também mais abrangente. Essa descoberta pode ampliar os recursos internos do supervisionando para um acolhimento maior do seu cliente, proporcionando assim mais espaço na relação para o crescimento de quem busca ajuda.

O terceiro é o discernimento de onde está a raiz da possível dificuldade que o cliente quer superar. A vantagem dessa descoberta é que, uma vez apontada para o cliente, este possa refletir

Página <178>

e confirmar o quanto a descoberta do psicoterapeuta está relacionada, ou não, com a dificuldade dele.

E, finalmente, a dificuldade que o supervisionado está tendo em aceitar a si mesmo nas suas percepções, sentimentos, conhecimento e intuições em relação ao atendimento apresentado. Esta, é ao meu ver, a dificuldade mais comum e é também a que mais se repete. Penso que ela está relacionada com o grau de aceitação e confiança que o profissional tem de si mesmo. E muitas vezes é necessária uma autoavaliação sobre sua história de vida, que também deve ser feita na psicoterapia pessoal, para detectar de onde vem e destruir a dinâmica em desaprovar a si mesmo, desnecessariamente.

Enfim, quero dizer que é imensamente prazeroso ver O acolhimento e as mudanças que um supervisionado faz de si e em si mesmo, na interação com o supervisor!


Que é mais importante para o bom desempenho do psicoterapeuta da ACP?

Marcos Alberto
Começo da Citação
Quando estou no meu melhor, como facilitador de grupo ou terapeuta, descubro outra característica. Percebo que quando estou mais perto de meu self íntimo, intuitivo, quando de alguma forma estou em contato com o desconhecido em mim, quando talvez esteja no relacionamento em um estado de consciência ligeiramente alterado, então, tudo o que faço parece estar repleto de cura. Minha simples presença, então é libertadora e benéfica. Não há nada que eu possa fazer para forçar essa experiência mas quando consigo relaxar e ficar perto do meu cerne transcendental, então talvez eu me comporte de modo estranho e

Página <179>

impulsivo no relacionamento, modo que não posso justificar racionalmente, e que não tem nada a ver com meus processos de pensamentos. Mas esta condutas estranhas vêm a ser certas, de algum modo. Nesses momentos parece que o meu espírito interior alcançou e tocou o espírito interior do outro. Nosso relacionamento transcende a si próprio e se torna parte de alguma coisa maior. Energias de cura e crescimento estão presentes (ROGERS, 1987).
Fim da Citação

Fica muito difícil, depois da citação acima, falar a respeito desse tema, pois, a meu ver, essa citação é quase completa e traduz integralmente o que vejo ser de total importância para um bom desempenho do psicoterapeuta a partir dos princípios da ACP.

Quero, no entanto complementar que, a meu ver, para que eu esteja com um funcionamento ótimo na relação psicoterápica, é imprescindível que eu me norteie pelos princípios dessa abordagem.

O grande desafio, em minha opinião, é me nortear nesses princípios sem me utilizar deles como técnica, ou seja, incorporando-os o meu jeito de ser e em minha vida, de modo que eu esteja presente. Não quero pensar nesses princípios. Quero ser esses princípios!

Se prestar atenção neles, abandonarei o meu jeito de ser, se estiver preocupado em ter empatia, em ser congruente e em ter uma capacidade de aceitar a pessoa de forma incondicional, estarei me distanciando da minha espontaneidade é não estarei inteiro na relação.

Estar com o outro é acreditar na capacidade da pessoa em se autodirigir. É ter confiança de forma integral em sua capacidade. Para estar com o outro é importante que eu tenha essa mesma confiança em mim e em saber que o fato de eu ser eu mesmo nessa relação contribuirá para o desenvolvimento dessa relação e consequentemente possibilitará maiores condições de ajuda à pessoa.

Ter os princípios facilitadores dessa abordagem sendo eu

Página <180>

mesmo talvez seja o grande desafio do psicoterapeuta na relação de ajuda para aprimorar o meu desempenho e ter maiores chances de facilitar condições para que a pessoa tenha no ambiente psicoterápico um clima favorável ao seu crescimento, lembrando que a visão de crescimento é sempre algo muito pessoal e relativo. É ter a capacidade de transcender o pensamento e o conhecimento.

Sei por experiência própria que no é fácil sermos nós mesmos na relação psicoterápica. Sermos genuínos significa assumirmos a nossa responsabilidade nessa relação e vejo que é muito mais fácil nos apoiarmos em algo que esteja fora da gente para podermos responsabilizar caso algo não dê certo.

É muito mais fácil, por exemplo, optarmos em fazer do jeito que acreditamos que Rogers faria. É muito mais cômodo tentarmos imitar Rogers, sendo um “rogeriàno”. Teremos a quem culpar caso algo de errado na relação.

Como já mencionei em outras ocasiões, este era um dos pavores de Carl Roger. Em um de seus livros, Irmão Henrique Justo conta uma situação que presenciou a respeito do tema:

Começo da Citação
Assisti no Rio de Janeiro, em 1977, á um diálogo entre Rogers e uma psicóloga:
Ela: Eu também sou rogeriana.
Ele: Não é possível! Somente há um rogeriano no mundo: esse sou eu. Você tem que ser você. Se achar úteis colocações minhas, deverá assimilá-las do seu modo (JUSTO, 2002).
Fim da citação

Isto vai ao encontro do que entendo ser Abordagem Centrada na Pessoa: a possibilidade de desfrutarmos nossa liberdade em sermos nós mesmos a partir de alguns princípios que fazem sentido em minha vida e consequentemente na relação de ajuda.  Não quero desempenhar um papel. Quero ser eu mesmo, crendo que isto facilite de alguma forma no outro a possibilidade de ele ser ele mesmo também, para que, a partir daí, exista

Página <181>

um encontro que enriqueça a ambos e propicie condições para que a pessoa se desenvolva nesse processo.


Como a ACP trata as doenças mentais?

Marcos Alberto

Começo da citação
Eu não gostaria de ser mal-compreendido. Não tenho uma visão ingenuamente otimista da natureza humana. Tenho perfeita consciência do fato de que, pela necessidade de se defender dos seus terrores íntimos, o indivíduo pode vir a comportar-se de uma maneira incrivelmente feroz, horrorosamente destrutiva, imatura, regressiva, antissocial prejudicial. Mas não deixa de ser verdade que o trabalho que levo a cabo com indivíduos desse gênero, a pesquisa e a descoberta das tendências que estão oriundas muito positivamente nele todos, e em todos nós, ao mais profundo nível, constituem um dos aspectos mais animadores e revigorantes da minha experiência (ROGERS, 1961).
Fim da citação

Desde os primeiros anos das nossas vidas, aprendemos a rotular as coisas e as pessoas e do mesmo jeito aprendemos a conviver de forma passiva aos rótulos que sofremos.

Deixamos de ser pessoas e viramos um rótulo!

Em minha época de estudante universitário, lamentavelmente, aprendi a maior parte do tempo a rotular as pessoas. Rotular sentimentos, sofrimentos, alegrias, ansiedades e euforias. Aprendi que determinados sentimentos podem existir desde que estes tenham um prazo de validade. Sentimentos que persistem além desse prazo são rotulados mediatamente.

O que são doenças mentais senão um rótulo?

A Abordagem Centrada na Pessoa propõe que quebremos os

Página <182>

estigmas para que possamos ir além e em direção a pessoa, que sofre e que por algum motivo foi rotulada em seus sentimentos ou atitudes. Nossa abordagem ousa acreditar no potencial da pessoa mesmo quando ninguém mais acredita.

Para compreender como se cuida das pessoas com doenças mentais, penso que seja de fundamental importância entender que a nossa abordagem enxerga todas as pessoas dignas de confiança e que estas estão a todo o momento tentando encontrar melhores saídas para si, sabendo que, muitas vezes, essas saídas, para aquelas pessoas ditas saudáveis, não têm nenhuma importância ou nenhum significado, mas se tivermos a real capacidade de termos uma consideração empática, levando em conta o contexto da pessoa, talvez seja mais fácil compreender o seu movimento e a sua tentativa em encontrar as suas saídas.

Falando das pessoas estigmatizadas e da busca em encontrar melhores saídas Rogers comenta:

As condições em que se desenvolvem essas pessoas tem sido tão desfavoráveis que suas vidas quase sempre parecem anormais, distorcidas, pouco humanas. E, no entanto, pode-se confiar que a tendência realizadora está presente nessas pessoas. A chave para entender seu comportamento é a luta em que se empenham para crescer e ser, utilizando-se recursos que acreditam ser os disponíveis. Para as pessoas saudáveis, os resultados podem parecer bizarros e inúteis, mas são uma tentativa desesperada da vida para existir. Esta tendência construtiva e poderosa é o alicerce da Abordagem Centrada na Pessoa (ROGERS, 1983).

A meu ver, nossa abordagem busca ajudar a pessoa estigmatizada como “doente mental”, da mesma forma como lida com qualquer outra pessoa que busca ajuda, ou seja, tendo uma compreensão empática, sendo congruente, tendo uma consideração incondicional positiva e crendo sobretudo, no princípio de tendência atualizante, pois essa pessoa, assim como qualquer outra, é única em seus sentimentos e sofrimentos e mesmo que

Página <183>

eu não consiga compreender o seu movimento, tenho a convicção de que ele tem algum sentido para ela.

Descobri, através da minha experiência, que todas as pessoas são dignas de confiança e que todas querem encontrar uma saída melhor. Tive inúmeras oportunidades de atender pessoas estigmatizadas, que, ao sentirem no ambiente psicoterápico a liberdade de serem elas mesmas sem rótulos, tiveram a possibilidade de restaurarem as suas vidas.

Aprendi também, através da minha experiência, que as pessoas que vivem sob o estigma de “doente mental”, muitas vezes, nada mais são do que pessoas oprimidas em uma rede de relações opressoras complexas. Já vi pessoas “enlouquecerem” para terem coragem de desafiar, terem a possibilidade de falar aquilo que estava engasgado, para conviverem com os próprios medos, receberem afeto, serem enxergada ou para serem aceitas.

Penso que ingenuamente e muitas, vezes de forma bem intencionada, deixamos de olhar o outro como uma pessoa e priorizamos o estigma. Dessa forma, esquecemos o sofrimento e os sentimentos, que é o que de fato importa. Infelizmente, não se conversa com o “doente mental” a não ser que seja para que haja uma investigação no seu quadro para a criação de novos rótulos.

Novamente, Rogers emite a sua opinião de como estar com a pessoa:

Começo da Citação
Penso num homem com quem passei muitas horas, grande parte delas em silêncio. Houve longos períodos em que não tive jeito de saber se o relacionamento tinha ou não algum sentido para ele. O paciente não se comunicava, estava aparentemente indiferente, retraído, incapaz de se exprimir. Lembro de uma hora em que se sentiu completamente inútil, desesperado, com impulsos para o suicídio. Queria fugir, acabar consigo, pois murmurava com desespero flagrante: “Não me importa.” Respondi: “Sei que você não se importa consigo, não se importa de todo, mas só quero que você saiba que eu me importo.”. E então, depois de uma longa pausa, veio uma violência torrente de soluços profundos,

Página <184>

destruidores, arquejantes, que continuaram por quase meia hora. Ele observara o sentido de meu sentimento por ele (ROGERS, 1967).
Fim da Citação

Vejo que é fácil para nós, psicoterapeutas, estarmos com uma pessoa que não possui algum tipo de rótulo. É muito fácil remarmos a favor do senso comum. É simples não desafiarmos a visão acomodada do tratamento aos “doentes mentais”. A Abordagem centrada na Pessoa, através de sua postura em acreditar no potencial humano, ainda quando ninguém mais crê, vem desafiar todo esse processo que, infelizmente, é tão bem sedimentado no campo da saúde mental.

A minha opinião é que talvez esteja na hora, de repensarmos o que significa esse termo e todas essas posturas aprendidas
.
A meu ver, a proposta centrada na pessoa no campo da “saúde mental” é a de nos contrapormos às estruturas para tentarmos facilitar condições para que essas pessoas possam voltar a existir de forma livre de ameaças e estigmas para quem sabe, terem a oportunidade de se fortalecerem em busca de uma nova, saída.


De exemplos de corno se pratica a congruência.

Marcos Alberto
Como já foi dito, a congruência é um dos princípios que acreditamos ser facilitador na relação ode ajuda dentro dessa visão.

A meu ver, congruência é uma capacidade imprescindível do psicoterapeuta na relação de ajuda, em ser autêntico com a pessoa em suas percepções e sentimentos. São sentimento que de alguma forma persistem no psicoterapeuta durante essa relação e que de alguma forma interferem para que ele esteja inteiro nesse processo.

Página <185>

A esse respeito, Eugene Gendlin, grande colaborador de Rogers e criador da Filosofia do Implícito, nos fala:

Começo da Citação
Seria errado dizer que exprimo tudo o que ocorre em mim, pois milhares de coisas estão ocorrendo em mim a todo o momento, e não podem nem ser formuladas nem expressas separadamente. Além disso, não deixo escapar impulsivamente a primeira coisa que passa pela minha cabeça. Vivo interiormente alguns momentos, e assim descubro em mim uma resposta ao cliente, ou ao que aconteceu entre nós ou ao nosso silêncio (GENDLIN, 1967).
Fim da Citação

É importante que nessa expressão eu deixe claro que este é um sentimento meu com relação àquele momento e que esse sentimento não é urna verdade do cliente. Quando estou atendendo uma pessoa, costumo e gosto de deixar claro, quando digo algo que se passa em mim, que esta é uma sensação, percepção ou visão minha e que talvez nada tenha que ver com a pessoa. Tenho necessidade de exprimir esses meus sentimentos ou percepções, deixando sempre claro que ele tem o direito óbvio de fazer o que quiser com essa minha manifestação.

Gosto de ter esse cuidado, pois, infelizmente, há um grande mito dentro da psicologia e da psicoterapia, de que, se o psicoterapeuta falou, é porque é algo preciso, ainda que o cliente não esteja percebendo naquele momento.

Não tenho a menor dificuldade em abandonar o que disse e em retomar o caminho do cliente, caso o que eu tenha dito não tenha nenhum sentido para ele.

O grande “problema” em sermos autênticos na relação de ajuda é que, ao fazermos isto, estamos nos expondo e abrindo mão do poder que muitas vezes nos é outorgado pelo cliente ou pelo senso comum. Já ouvi clientes falarem: “Se você disse, é porque deve ser verdade...” Cada vez mais, tenho a intenção de abandonar as minhas verdades e estar conectado ao cliente na direção que ele está seguindo. Ao sermos congruentes, perdemos

Página <186>

o controle, pois aquele sentimento, através da minha expressão, já não mais me pertence e estou vulnerável de alguma forma, pois o cliente poderá fazer uso dessa expressão da forma como quiser.

Corro o risco de o cliente discordar de mim ou de ele se decepcionar comigo, mas também corro o risco de, através da minha expressão autêntica, facilitar algo no, cliente e, com toda certeza, por meio da congruência, terei condições de me esvaziar dos sentimentos que me fazem refletir, me fazendo ficar distante da relação com a pessoa. Quando sou capaz de me expressar de forma autêntica, estou novamente pronto para continuar caminhando com ela, seja qual for a sua reação.

Quero lembrar que a congruência não pode funcionar sozinha; é importante que ela caminhe com os demais princípios da Abordagem Centrada na Pessoa, pois se esses princípios estiverem integrados em mim, terei maiores condições de ser congruente de forma empática, ou seja, terei condições de expressar o que acontece em mim nessa relação de forma cuidadosa. Congruência não significa falar tudo aquilo que passa, em minha cabeça. Também não significa falar algo de qualquer forma para o cliente, embora signifique ter a capacidade de manter uma relação genuína.

Segundo Rogers:

Começo da Citação
Ser genuíno significa revelar à outra pessoa “onde estamos” emocionalmente. Pode abranger confronto e a expressão pessoal e franca de sentimentos negativos e positivos. Portanto, a congruência é um aspecto fundamental na vida em comum num clima de autenticidade (ROGERS, 1977).
Fim da Citação

Agrada-me ser capaz de dizer exatamente aquilo que ocorre comigo na relação com o outro de forma clara, assumindo a minha responsabilidade pelo que disse e por qualquer consequência que isto possa acarretar.

Página <187>

Tenho a convicção de que é facilitador na relação o fato de eu dizer que estou aborrecido, ou com medo, ou apreensivo, caso esteja. Sei que posso dizer algo que percebo nele desde que isto no seja dito como uma verdade escondida da pessoa, e sim como uma percepção minha.

Praticar essa cogruência significa encontrar o seu próprio jeito de ser autêntico na relação, respeitando também os meus próprios limites, mas, ao mesmo tempo, arriscando enfrentar os próprios medos em fazer parte de uma relação verdadeira.

Uma das poucas certezas que tenho é que viver é algo arriscado e eu quero ter a capacidade de correr o risco que a congruência me traz na relação psicoterápica, pois, através dessa postura, tenho a certeza de que poderei avançar junto com o cliente a um novo nível nessa relação é essa possibilidade, de estar de forma inteira e verdadeira com o outro, é algo que sempre m enriquece. Nem ele, nem eu jamais seremos os mesmos!


Que fazer quando um familiar liga para contar alguma coisa do meu cliente?

Marcos Alberto
Quero deixar claro que não estou falando em nome da Abordagem Centrada na Pessoa nem em nome de nenhuma conduta padrão ou correta. Estou falando em meu nome e o meu convite ao leitor é de que a minha visão possa servir apenas como possibilidade de reflexão, para que, ainda que discorde inteiramente dessa posição, possa descobrir o seu jeito de lidar com essa situação que por vezes ocorre em ambiente terapêutico.

Página <188>

Essa questão, a meu ver, embora possa parecer simples, é altamente complexa, pois quando falamos de psicoterapia, para mim, estamos falando do respeito incondicional ao cliente, ou seja, estou vinculado de corpo e alma a ele, nessa relação, e é com ele que quero caminhar nesse processo, mantendo essa relação totalmente protegida de qualquer interferência externa.

Penso que uma boa questão a ser levantada tem a ver com qual é o objetivo de eu ter as informações dessa terceira pessoa, uma vez que tenho convicção na capacidade do cliente em buscar melhores alternativas para si.

Uma segunda e também importante questão é se seria uma atitude ética de minha parte segundo os princípios da Abordagem Centrada na Pessoa, levar em conta algum tipo de interferência externa em uma relação onde eu estou totalmente vinculado ao cliente.

Quero deixar claro que não vejo este como um tema simples e que sempre quando vivencio uma situação destas há em mim uma grande tensão.

Acredito na possível boa intenção da família ou de outras pessoas que, de algum modo procuram o psicoterapeuta para tentar contar algo a respeito do cliente. Compreendo que há uma preocupação por parte dela, de que talvez o cliente esteja omitindo algum tipo de informação ou que esteja contando no ambiente psicoterápico apenas o que “convém” a ele e que, dessa forma, a intenção da terceira pessoa seria mostrar o “outro lado” da história.

Tenho convicção do estrago que essas “boas intenções” podem causar. Já vi pessoas que se vêem em amplo processo de crescimento e de libertação, mas que de alguma forma, sob a perspectiva da família, está “piorando”, pois ela antes era uma pessoa dócil e passou a ser rebelde depois do início do processo psicoterápico.

Quero dizer com isto que o processo de crescimento é algo muito pessoal e crescimento e “melhora” dependem sempre do

Página <189>

ângulo de quem olha. Uma vez, atendi um rapaz que estava cursando o último ano de direito e que durante o processo psicoterápico foi se dando conta de que nunca quis ser advogado e que estava fazendo esse curso em função da pressão do pai que tinha a mesma profissão e era um profissional bem-sucedido. Sentindo-se fortalecido internamente, o cliente resolveu trancar a sua matrícula do curso de direito e prestar vestibular para biologia, que era o que ele sempre sonhou cursar.

Sob a perspectiva do cliente, ter coragem de romper com o curso escolhido pelo pai em beneficio, de sua própria escolha significava um grande avanço, enquanto para a sua família esse ato significava uma insanidade, ou seja, para a família essa pessoa estava muito pior, pois havia se tornado um filho rebelde.

Na minha visão, não me ajuda saber algo do cliente que não seja por ele mesmo e sinto que ainda que eu esteja bem intencionado, ao dar abertura para que uma terceira pessoa entre nessa relação, talvez ingenuamente eu passe a seguir os passos dela e não mais os passos do meu cliente.

Alguns profissionais levantam a seguinte questão: e se o cliente estiver omitindo algo?

Novamente, penso o quanto tudo sempre é relativo, inclusive em se tratando do que significa “estar omitindo algo”. A minha experiência me faz acreditar que a pessoa tende se expressar, do seu jeito, no seu ritmo e a partir do que é incômodo para ela.

A minha visão é de que mesmo que essa “omissão” exista, terá um sentido para o cliente e eu quero saber respeitá-lo e compreendê-lo também em suas “omissões”, em suas verdades e em seu ritmo. A minha visão é que, se eu me aproveitar de alga que não venha dele na relação de ajuda, além de isto não facilitar em nada o seu desenvolvimento, estarei ainda, de alguma forma, destruindo a relação de confiança tão imprescindível na psicoterapia.

Em minha opinião, isto tem que ver também com a postura ética dentro dos princípios dessa abordagem, pois me ocupando

Página <190>

de informações vindas de fora talvez esteja contribuindo para a manutenção de uma relação “opressor/oprimido” ou indo, a favor de determinados interesses que não guardam nenhuma relação com a pessoa que está buscando ajuda.

Quando algum familiar me procura para contar algo a respeito do cliente, antes de ouvi-lo, costumo dizer que exatamente tudo aquilo que me for dito será comunicado à pessoa que atendo, pois a minha relação é com ela e não posso quebrar esse vínculo de confiança tão essencial em um atendimento psicoterápico.

Procuro expressar isto de forma cuidadosa a essa terceira pessoa, que, como a mencionei, na maioria das vezes, está bem intencionada, embora esteja olhando pela sua perspectiva. Costumo perguntar para essa pessoa como ela se sentiria se fizesse psicoterapia com alguém que ouvisse uma terceira pessoa falando dela sem que ela soubesse. Vejo que esse pequeno exercício de empatia normalmente faz a pessoa compreender que, apesar da boa intenção, ela esta sendo invasiva em uma relação que não pertence a ela.

Independente de ouvir ou não essa terceira pessoa, sinto me obrigado a compartilhar isto com o meu cliente, pois é dele o interesse por qualquer coisa que tenha a ver com a sua vida.

Incentivo a terceira pessoa, que julga tão importante que eu a ouça, a pedir autorização para o cliente para que eu possa ouvi-la.

Costumo confiar inteiramente no potencial do meu cliente e creio que é a partir dessa confiança que tenho condições de buscar facilitar nessa relação uma possibilidade de ajuda. A partir desse pressuposto, a tentativa de “ajuda” vinda de fora, sem a autorização do cliente, causaria grande estrago na relação de confiança e esta, a meu ver, é algo fundamental na relação psicoterápica.

Página <191>